sábado, 9 de maio de 2026

SAÚDE

 Sobrecarga nos afazeres domésticos acende alerta para saúde mental de mães

Especialista da UNIASSELVI afirma que promover uma educação
mais igualitária desde a infância é o caminho para transformação dessa cultura
 

No mês das mães, a reflexão acerca da sobrecarga feminina reacende o debate sobre a desigualdade do apoio familiar. No Brasil, a realização de tarefas domésticas, como o cuidado com os filhos e com a casa, é feita em sua maioria pela mulher. Nesse contexto, redes de apoio são fundamentais para amenizar a situação. Mas, segundo especialista, apenas uma mudança profunda na sociedade é capaz de reduzir desigualdades e equiparar as responsabilidades entre gêneros.

Um levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua de 2022, do IBGE, revela que as mulheres dedicam, em média, 9,6 horas a mais do que os homens aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Para Luciane da Luz, coordenadora dos cursos de Sociologia e Antropologia da UNIASSELVI, a mudança dessa realidade exige uma transformação cultural e estrutural.

“É preciso desconstruir a ideia de que o cuidado é uma característica natural das mulheres e promover uma educação mais igualitária desde a infância. Sob a perspectiva da antropologia e dos estudos de gênero, a associação entre o trabalho doméstico, o cuidado e a figura feminina é uma construção social e histórica, não biológica", explica a especialista.

A consolidação da sociedade industrial no século XIX reforçou essa divisão, atribuindo ao homem o papel de provedor (trabalho produtivo) e à mulher o de cuidadora (trabalho reprodutivo). Normas culturais, religiosas e até científicas naturalizaram a ideia de que as mulheres teriam uma ‘vocação’ para o cuidado. “Existe uma idealização da maternidade que coloca a mãe como totalmente disponível, abnegada e responsável exclusiva pelo bem-estar dos filhos. Esse modelo é inalcançável na prática, mas ainda funciona como referência. Essa expectativa dificulta a busca por ajuda, pois muitas mulheres sentem que deveriam dar conta de tudo sozinhas. Pedir apoio pode ser interpretado como falha, quando, na verdade, é uma estratégia saudável e necessária”, afirma.