MINISTRO DO STF
ANDRÉ MENDONÇA
Tragédia de Copacabana
Pedro Cardoso da Costa
Interlagos - SP
Nada mais ilustrativo do que o fato de o linchamento de um inocente ter ocorrido no bairro da mais famosa praia brasileira, em meio a um clima de diversão e de roda de samba. De pronto: mesmo que fosse um ladrão de bicicleta ou de qualquer outra coisa, o crime teria a mesma gravidade.
Num dia como qualquer outro, um homem resolve dar uma volta pela cidade e se utiliza da bicicleta da irmã. Foi para um local de seu interesse.
Nessa rua havia um “segurança” que, pela sua própria análise, deveria detectar ladrões em razão do que cada pessoa teria condições de possuir ou não, ou de portar determinado bem ou objeto supostamente roubado.
Daí, chegou à conclusão de que a bicicleta que estava em posse de Cláudio Rafael Landeiro era roubada. Segundo o noticiário, indagado sobre qual elemento indicativo o havia levado a essa conclusão, a resposta foi que nenhum havia.
Mesmo assim, com outro segurança da rua, conseguiu um porrete, e a pessoa que aparece nas imagens entregando o objeto também não deve ser ignorada pelas investigações. Em seguida, começou a sessão de tortura.
Como se fosse um festim, ao encontrar dois entregadores no corre-corre do espancamento, os convidou para participarem do entretenimento da tortura. O pior é que os rapazes aceitaram com a maior naturalidade do mundo. Essa predisposição ao sadismo ainda teve o reforço de outro homem, que parou o carro para dar alguns golpes.
Além desses, alguns passaram, viram e ignoraram. Existe o medo mesmo de sobrar para quem tentar, mas não consta que alguém que tenha presenciado a cena tenha se afastado para chamar a polícia. Não consta que, mesmo entre os participantes, alguém tenha se compadecido, achado suficiente e pedido para parar.
Também merece observação o fato de a tortura ter durado de seis a nove minutos, com mais de 60 pauladas, algo que certamente deve fazer barulho e nenhuma imagem instantânea ter sido captada pela polícia e nenhuma viatura passou pelo local. Também não passou quando outros resolveram matar Moïse Mugenyi Kabagambi.
Estava tão divertido que um dos agressores aparece rindo nas imagens, depois de deixarem o rapaz desfalecido no chão. É o mesmo que concluiu que a bicicleta era roubada sem nenhuma informação e que, “apenas” com pouco mais de sessenta pancadas, principalmente na cabeça, não tinha a intenção de matar, nem a noção de que esse número de golpes poderia matar até um robô.
Como o número de assassinatos no Brasil passa de 40 mil por ano desde 1997, ininterruptamente, matar pessoas foi se naturalizando. E, para alguns, chega a ser entretenimento. Porém, pela banalidade ou crueldade, alguns casos tomam conta do noticiário.
Muitos morrem por engano, como se fosse possível matar alguém “por engano” sem que isso revelasse uma gravidade extrema. Polícia mata por confundir guarda-chuva com fuzil. Mata-se jogando gás no fundo de uma viatura fechada. Policial se aborrece e joga um homem de uma ponte como se essa fosse a ação mais natural do mundo. Mata-se tocando fogo num índio vivo. Pais matam filhos pequenos para atingirem as ex-companheiras. Patroa é acusada de matar empregada para não pagar o que devia. Outra deixa o filho de cinco anos da empregada sozinho num elevador.
Outro ponto que ajuda a normalizar a cultura da matança vem da própria legislação. O Código Penal, em seu artigo 121, define o título como homicídio simples. Não existe homicídio simples. E o Congresso tem de aumentar a pena mínima para, ao menos, 20 anos de prisão efetiva, sem direito à progressão nesse período. Nenhuma medida isolada resolve, mas todas as instituições precisam agir no combate efetivo à violência. Só com discurso, com o apertar de botões disso e daquilo e com assassinos respondendo a processo em liberdade, chegou-se ao genocídio brasileiro, talvez irreversível. Mas, pelo menos, a matança por diversionismo talvez diminua.
Pedro Cardoso da Costa
Interlagos – SP
Alberto Jorge, CEO da Trust Control, traz orientações para evitar invasões de sistemas e roubos de dados durante o período eleitoral.
O período eleitoral concentra atenção pública e movimenta grandes volumes de informação, o que o transforma em cenário fértil para criminosos virtuais que usam engenharia social e, cada vez mais, inteligência artificial (IA) para aplicar golpes. Segundo Alberto Jorge, CEO da Trust Control e especialista em cibersegurança, o momento exige cuidado redobrado com o envio de links por mensagens instantâneas e até por SMS, canal que “ainda funciona bastante” como vetor de ataque.
Os hackers, na avaliação do especialista, são criminosos que buscam “ganchos” em assuntos em alta para aumentar a taxa de cliques e a eficácia dos golpes. No contexto eleitoral, isso se traduz em falsas listas de candidatos “caçados”, áudios supostamente vazados e outras narrativas que criam urgência ou curiosidade, levando a vítima a clicar em um link falso. “A partir desse clique, o atacante pode roubar dados, contaminar o dispositivo e, em seguida, usar o acesso conquistado para desferir outros tipos de ataque”, alerta Alberto Jorge.
Temáticas em alta
O modus operandi dos cibercriminosos é cíclico e sazonal: os golpistas migram de tema em tema conforme o calendário e o interesse coletivo — INSS, Black Friday, Natal e, agora, eleições — porque sabem que as pessoas estão mais atentas a essas pautas e mais vulneráveis a iscas relacionadas a elas. “Eles vão migrando de um tema para outro, para chamar a atenção. Por isso, a eleição funciona como mais um mote explorado em campanhas de phishing e fraude”, reforça o CEO da Trust Control.
Além do risco individual, há um componente corporativo importante: muitas pessoas acessam esses conteúdos em dispositivos usados também para trabalho, o que amplia o impacto do golpe. “Se a vítima compromete um aparelho corporativo, a organização pode sofrer vazamento de dados, infecção por malware ou até ter sua rede usada como ponto de partida para novos ataques”, ressalta Alberto Jorge.
Golpes de IA
A inteligência artificial entra como acelerador e sofisticador desses crimes, especialmente na criação de vídeos, áudios e textos convincentes que se passam por candidatos, partidos ou autoridades. “Está muito fácil criar vídeos, informações ou qualquer coisa usando inteligência artificial se passando por alguém”, alerta Alberto Jorge, antecipando que circularão muitas peças com deepfakes e conteúdos sintéticos para ludibriar eleitores e influenciar intenções de voto.
Desconfie de links recebidos por WhatsApp, SMS ou redes sociais, mesmo que pareçam vir de conhecidos; confirme a origem antes de clicar.
Verifique a autenticidade de áudios, vídeos e imagens “vazados” em sites oficiais, portais de checagem e canais verificados de candidatos e órgãos eleitorais.
Não informe dados pessoais, senhas ou códigos de autenticação em páginas acessadas por links suspeitos; digite sempre o endereço oficial no navegador.
Mantenha dispositivos pessoais e corporativos atualizados (sistema operacional, aplicativos e antivírus) e evite instalar aplicativos fora das lojas oficiais.
Para empresas, deve-se reforçar as políticas de uso seguro de dispositivos, treinar colaboradores para identificar phishing e restringir instalações e acessos privilegiados.
Diante de conteúdo gerado por IA (vídeos, áudios, textos), procure inconsistências (voz, sincronia labial, contexto) e busque confirmação em fontes primárias antes de compartilhar qualquer link ou arquivo.
Diagnóstico precoce e informação são decisivos para melhorar a qualidade de vida de pessoas com lipodistrofia
Paciente com lipodistrofia congênita generalizada, Karyn Cerqueira compartilha sua trajetória para reforçar a importância do acesso ao diagnóstico precoce e ao acompanhamento especializado.
A lipodistrofia é um grupo de doenças raras caracterizadas pela perda total ou parcial do tecido adiposo, responsável por armazenar gordura no organismoi. Além das alterações físicas, a condição pode estar associada a complicações metabólicas importantes, como diabetes de difícil controle, alterações hepáticas e dislipidemias, exigindo acompanhamento médico contínuo e diagnóstico precoce para reduzir impactos na saúdeii.
"Na lipodistrofia, o organismo perde a capacidade de armazenar gordura adequadamente, fazendo com que ela se acumule em órgãos como o fígado e desencadeie complicações metabólicas importantes. Por isso, o diagnóstico precoce é fundamental: ele permite iniciar o tratamento antes que ocorram danos irreversíveis e melhora significativamente o prognóstico e a qualidade de vida dos pacientes", explica o endocrinologista Dr. Augusto Cezar Santomauro Junior.
Embora rara e ainda pouco conhecida pela população, a lipodistrofia afeta significativamente a vida das pessoas não apenas pelos desafios clínicos, mas também pelo preconceito decorrente das características físicas da doença. Para contribuir com a conscientização sobre o tema, a paciente Karyn Cerqueira, de 29 anos, compartilha sua história de vida e mostra como informação, acolhimento e acesso ao cuidado podem fazer a diferença.
"Eu nasci diferente e essa foi a primeira coisa que o mundo percebeu sobre mim", conta Karyn Cerqueira, diagnosticada com lipodistrofia congênita generalizada desde o nascimento. Segundo ela, o diagnóstico veio ainda nos primeiros dias de vida, quando o pediatra identificou alterações físicas que levaram à investigação da doença.
O diagnóstico precoce permitiu que Karyn iniciasse o acompanhamento médico ainda na infância, fator que contribuiu para o controle da doença ao longo dos anos. "Graças a isso, consegui acompanhamento médico desde cedo e segui protocolos que me ajudaram a chegar até aqui com qualidade de vida", afirma.
Segundo Santomauro, identificar a doença precocemente também pode reduzir o risco de complicações graves ao longo da vida. "Sem o tratamento adequado, a lipodistrofia pode evoluir para diabetes de difícil controle, doença hepática avançada, hipertrigliceridemia grave e aumentar o risco de complicações cardiovasculares, como aterosclerose precoce, infarto e cardiomiopatias. O acompanhamento especializado é essencial para prevenir esses desfechos", comenta.
Além dos desafios clínicos, pessoas com lipodistrofia frequentemente enfrentam estigma e desconhecimento social. "Foi só quando comecei a conviver com outras pessoas que percebi que havia algo diferente. Os olhares, os comentários e as perguntas foram difíceis", relembra.
Atualmente, a rotina de Karyn envolve acompanhamento contínuo e hábitos saudáveis para controlar as complicações associadas à doença. "Preciso manter uma alimentação controlada e praticar atividade física regularmente. Não é opcional, faz parte do meu cuidado. Fora isso, minha vida é absolutamente comum."
Hoje, além de empreendedora no setor de turismo, Karyn também utiliza as redes sociais para ampliar a conscientização sobre a lipodistrofia. "Uso a internet para compartilhar informação sobre a lipodistrofia, porque sei o quanto o desconhecimento ainda pesa."
Além de conviver diariamente com a lipodistrofia, Karyn decidiu transformar sua experiência em uma forma de conscientização. Ao compartilhar sua história, ela busca ampliar o conhecimento sobre a doença rara, combater o preconceito e incentivar que outras pessoas tenham acesso ao diagnóstico e ao acompanhamento especializado o mais cedo possível.
"O diagnóstico não é uma sentença. Ele não determina até onde você pode ir. A gente tem a doença, mas a gente não é a doença.", enfatiza Karyn.
Além do tratamento medicamentoso, o especialista reforça que o cuidado deve envolver diferentes profissionais. "A lipodistrofia é uma doença multissistêmica e exige acompanhamento multidisciplinar. Endocrinologista, nutricionista, hepatologista, cardiologista e profissionais de saúde mental têm papéis complementares para controlar a doença, prevenir complicações e melhorar a qualidade de vida dos pacientes", destaca o médico.
O especialista também alerta que a descontinuidade do tratamento é especialmente preocupante em doenças raras e de maior gravidade, como a lipodistrofia, nas quais a interrupção dos cuidados pode provocar uma rápida piora do quadro clínico. "A interrupção faz com que a gordura volte a circular em excesso no sangue e se deposite de forma tóxica em órgãos vitais. Isso pode provocar um aumento acentuado dos triglicérides, descontrole do diabetes, progressão das lesões hepáticas e uma queda importante na qualidade de vida. A doença pode voltar a evoluir rapidamente e causar danos muitas vezes irreversíveis", afirma. Esse cenário reforça a importância de garantir o acesso contínuo ao acompanhamento especializado e às terapias indicadas, especialmente para pacientes com condições raras e de maior complexidade.