sábado, 25 de abril de 2026

DIREITO & TRIBUTAÇÃO

O voto e a crise silenciosa da democracia brasileira


Claudio Carneiro

Nas próximas eleições, milhões de brasileiros irão às urnas mais uma vez, mas uma parte importante deles chegará à cabine de votação com uma sensação incômoda: a de que está escolhendo o “menos pior” e não propriamente um projeto em que acredita. É um incômodo que não é novo, mas que ganhou força à medida que cresceu a desconfiança nas instituições, nos partidos e na própria ideia de política. A democracia segue de pé, mas algo nela vem se esgarçando em silêncio.

Pesquisas recentes mostram que a confiança dos brasileiros nas instituições está em baixa histórica. O Congresso e os partidos políticos figuram entre os campeões de desconfiança, e até o Supremo Tribunal Federal, que deveria ser um dos pilares de estabilidade, passou a ser visto com reservas por boa parte da população. Quando o eleitor olha à sua volta e enxerga um sistema que parece não o representar, o voto corre o risco de se transformar em mero gesto burocrático. O que falar então do Poder Executivo nas suas três esferas de governo (federal, estadual e municipal)?


Essa erosão da confiança não acontece de um dia para o outro. Ela é resultado de anos de promessas não cumpridas, escândalos sucessivos, decisões judiciais controversas e um ambiente de polarização em que o adversário político passou a ser tratado como inimigo a ser destruído. Em vez de as eleições servirem para renovar esperanças, muitas vezes elas apenas escancaram fraturas que já estavam abertas.


Há quem leia o aumento do voto de protesto, do voto nulo ou branco, e também da abstenção, como sinais dessa crise de confiança. Em vez de usar o voto para apoiar um projeto, parte do eleitorado prefere usálo para rejeitar “tudo isso que está aí” ou simplesmente se ausentar do processo. É um recado claro: a democracia segue sendo o regime possível, mas o modo como ela tem sido praticada no Brasil não convence. Mas será que essa é a melhor solução para transformar o país?


Ao mesmo tempo, é importante notar que essa crise não significa necessariamente vontade de ruptura. A maioria dos brasileiros continua preferindo a democracia a qualquer forma autoritária de governo, ainda que critique duramente o funcionamento concreto das instituições. A tensão está justamente aí: queremos instituições que funcionem, mas temos cada vez mais dificuldade de confiar nelas.


Parte do problema está na confusão entre crítica e deslegitimação. Toda democracia saudável precisa de crítica às suas instituições; isso é o que as faz melhorar. O que se vê, com frequência, é algo mais corrosivo: transformar ataques às instituições em estratégia política, como se enfraquecêlas fosse um atalho para vencer eleições ou se manter no poder. Nesse jogo, a conta sempre chega, e não é pequena.


Quando a desconfiança vira método, o país entra em um círculo vicioso. Governos eleitos passam mais tempo se defendendo de suspeitas do que governando, opositores apostam no “quanto pior, melhor”, decisões técnicas são interpretadas como manobras partidárias, e o cidadão comum se retira para o único espaço em que ainda sente algum controle: o da própria vida privada. É nesse momento que a democracia começa a definhar por falta de participação qualificada.


O voto, nesse contexto, continua sendo um instrumento poderoso, mas não é mágica. Ele não resolve sozinho o problema de um sistema político fragmentado, de partidos que se parecem pouco ideologicamente e de instituições que comunicam mal suas razões. Ainda assim, abrir mão do voto, ou tratálo como um gesto irrelevante, é entregar de bandeja as decisões mais importantes do país a quem ainda está disposto a ocupar esse espaço


O desafio é resgatar a ideia de que a política não é assunto distante. Ela está no trânsito, na segurança pública, na escola dos filhos, na saúde, no imposto que se paga e no serviço que não chega. Quando o eleitor conclui que “tanto faz”, ele está, na prática, dizendo que tanto faz quem decide sobre tudo isso em seu lugar.


Isso não significa votar com entusiasmo cego em quem quer que seja. Significa assumir uma postura adulta diante da democracia: informarse, desconfiar das promessas fáceis, cobrar coerência entre discurso e prática, recusar a lógica do inimigo interno permanente. E, sobretudo, entender que o voto não é um cheque em branco, mas um contrato que pode — e deve — ser rescindido nas urnas quando for preciso.


A crise da democracia brasileira não está apenas nos discursos inflamados, nas redes sociais ou nas manchetes dos jornais. Ela também se manifesta na apatia, no cansaço e na sensação de que nada muda, independentemente de quem vença. Justamente por isso, talvez o maior gesto de responsabilidade cívica neste momento não seja gritar mais alto nas redes, mas fazer um movimento simples e, ao mesmo tempo, exigente: olhar para a própria consciência antes de apertar o botão verde da urna.


Em tempos de desconfiança crescente, o voto continua sendo o último fio que nos liga à ideia de que é possível corrigir rumos sem romper com a democracia. Se romper esse fio, o que sobra é sempre pior do que o cenário que hoje criticamos — e, nessa hora, pode ser tarde demais para se arrepender


Claudio Carneiro

(Advogado e PhD em Direito)

@claudiocarneirooficial


SAÚDE

Câncer de pele mais comum no Brasil avança por falsa sensação de segurança, alerta especialista

Dermatologista explica que informação não basta: erros repetidos no dia a dia e busca por bronzeamento continuam impulsionando os casos

O câncer de pele segue como o tipo mais frequente no Brasil, representando cerca de 30% de todos os tumores malignos e com mais de 220 mil novos casos por ano apenas na forma não melanoma. Abril é celebrado o mês Mundial de Combate ao Câncer, especialistas reforçam que, apesar da ampla disseminação de informações, a doença continua avançando principalmente por falhas nos hábitos de proteção ao sol.

Para a dermatologista Gislaine Sales Gomes Lara, que atende no Órion Complex, em Goiânia, o problema está menos no desconhecimento e mais no comportamento. “A informação não significa mudança de hábito”, afirma. 

Segundo ela, muitas pessoas até sabem da importância do protetor solar, mas não o utilizam corretamente, ou simplesmente restringem o uso a momentos de lazer, como praia e piscina. No entanto, é a exposição acumulada ao longo do dia, em atividades rotineiras como dirigir ou caminhar, que mais contribui para o desenvolvimento da doença.

A médica destaca ainda que o Brasil apresenta alta incidência de radiação ultravioleta durante todo o ano, o que potencializa os riscos. “É uma combinação de ambiente com hábitos inadequados”, resume.

Outro fator cultural que pesa é a associação entre bronzeado e saúde ou beleza. Gislaine é categórica ao afirmar que não existe bronzeamento seguro. “O bronzeado é uma resposta da pele a uma agressão. Quando a pele bronzeia, ela já sofreu dano”, explica. Ou seja, buscar esse efeito estético, seja ao sol ou por outros meios com radiação, implica necessariamente em algum nível de risco.

Nesse contexto, o bronzeamento artificial em cabines aparece como uma prática ainda mais preocupante. Segundo a especialista, esses equipamentos emitem radiação UVA em alta intensidade e de forma contínua, o que pode gerar uma falsa sensação de segurança por não causar queimaduras imediatas. “O UVA penetra mais profundamente na pele, acelera o envelhecimento e também aumenta o risco de câncer”, alerta. Não por acaso, esse tipo de exposição já foi classificado como carcinogênico pela Organização Mundial da Saúde e é proibido no Brasil para fins estéticos.

A popularização de métodos de bronzeamento por influenciadores também contribui para a desinformação. A dermatologista faz questão de diferenciar: enquanto as cabines utilizam radiação ultravioleta, o bronzeamento a jato é apenas a aplicação de um pigmento superficial, sem relação com câncer de pele. “O problema é colocar tudo no mesmo pacote. O bronze a jato não substitui proteção solar. É apenas estética”, pontua.

No dia a dia, pequenos erros acabam se acumulando e aumentando o risco ao longo dos anos. Entre os mais comuns estão o uso irregular do protetor solar, a falta de reaplicação, a aplicação em quantidade insuficiente e o esquecimento de áreas como orelhas, pescoço, colo e mãos. Também é frequente a falsa crença de que dias nublados não oferecem perigo, além da negligência com proteção física, como chapéus e óculos.

Por fim, Gislaine chama atenção para sinais que muitas vezes são ignorados, mas que podem indicar a presença de câncer de pele. Feridas que não cicatrizam, lesões que sangram com facilidade, “casquinhas” recorrentes e manchas ou pintas que mudam de cor, formato ou tamanho devem ser avaliadas. “Muita gente ignora porque não dói. E, no início, o câncer de pele realmente não dói”, alerta.

A orientação é incorporar a proteção solar à rotina. Afinal, como reforça a especialista, “é o pequeno erro repetido por anos que faz a diferença”.

 Leitura na infância aprimora capacidades cognitivas e molda mentes mais brilhantes

Hábito de ler para os pequenos não só enriquece o vocabulário, mas também melhora a concentração, o desempenho escolar e a capacidade de lidar com emoções, aponta especialista da UniCesumar

De acordo com levantamento de 2025 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que a taxa de analfabetismo no país, embora em queda, ainda atinge 5,4% da população de 15 anos ou mais, representando milhões de brasileiros. Este cenário reforça a urgência de políticas e práticas que incentivem a leitura desde a primeira infância, atuando na raiz do problema e garantindo que as crianças cheguem à escola com uma base sólida para a aprendizagem.

Em um mundo onde as telas disputam a atenção desde os primeiros meses de vida, um hábito antigo se reafirma como uma base mais forte para o desenvolvimento infantil: a leitura. Muito antes de decifrar as primeiras letras, a criança que ouve histórias já está treinando seu cérebro para pensar, sentir e se comunicar. Esta prática, longe de ser apenas entretenimento, é um investimento direto no desenvolvimento cognitivo, social e na saúde mental dos pequenos, além de fortalecer os laços familiares.

A prática da leitura compartilhada ativa simultaneamente diversas áreas do cérebro infantil, relacionadas à linguagem, memória, imaginação e emoções. "O hábito durante a infância é um dos estímulos mais completos, pois integra dimensões cognitivas, linguísticas, emocionais e sociais de forma simultânea. Cada momento de leitura contribui para o fortalecimento das conexões neurais, ampliando o repertório linguístico e favorecendo o desenvolvimento do pensamento simbólico, que é a base essencial para a alfabetização", afirma Aline Santos, professora do curso de Pedagogia EAD da UniCesumar.

Diferente de assistir a um filme em família, a leitura conjunta promove uma conexão ativa e afetuosa já que o contato físico, o diálogo sobre a história e a atenção mútua criam memórias afetivas e fortalecem o vínculo de confiança entre pais e filhos. "A leitura conjunta vai além do ato de ler: ela é um encontro. Um momento em que o adulto se faz presente, disponível e conectado com a criança, e é essa qualidade de presença que torna o vínculo mais forte", conclui Aline.

Benefícios em longo prazo 

Os benefícios se desdobram em múltiplas frentes. Em uma era de estímulos rápidos, a leitura funciona como um verdadeiro ‘treinamento cognitivo’, que ensina a criança a manter o foco e a atenção de forma sustentada. Ao acompanhar uma narrativa com começo, meio e fim, ela exercita a concentração, a escuta ativa e a capacidade de organizar pensamentos, habilidades cruciais para o desempenho escolar em todas as disciplinas, da matemática às ciências.

"Formar um leitor é também investir na saúde mental da criança. As histórias funcionam como um ‘laboratório seguro’ para as emoções. Por meio dos personagens, a criança aprende a nomear e compreender sentimentos complexos como medo, raiva e alegria. Ao se identificar com os personagens, ela vivencia situações complexas sem estar exposta a riscos reais. Esse processo favorece o autoconhecimento e ensina que é possível dialogar ou encontrar soluções em vez de reagir impulsivamente", explica Santos.

SAÚDE

 Canetas emagrecedoras ampliam alerta para acompanhamento e apoio da medicina diagnóstica

Popularização reforça a importância de exames de imagem para prevenir e identificar complicações precocemente

O avanço do uso das chamadas canetas emagrecedoras, baseadas em agonistas de GLP-1, tem ampliado o debate sobre segurança, indicação adequada e acompanhamento dos pacientes. Para o Dr. Harley De Nicola, médico radiologista e superintendente da Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem (FIDI), já é observado um impacto na medicina diagnóstica, sobretudo em situações específicas, como dor abdominal, suspeita de pancreatite e investigação de cálculos na vesícula.  

Isso acontece porque esses medicamentos atuam principalmente sobre órgãos do trato gastrointestinal, como fígado, pâncreas e vesícula biliar. Entre seus efeitos, está o retardo do esvaziamento gástrico, o que pode causar sintomas digestivos e, em alguns casos, estar associado a complicações mais relevantes. Além disso, a perda rápida de peso favorece o surgimento de cálculos biliares, o que exige atenção para sinais clínicos que podem demandar investigação complementar.  

Essas medicações podem ser seguras e eficazes quando bem indicadas, mas não devem ser encaradas como uma solução mágica. O acompanhamento médico é indispensável para monitorar efeitos gastrointestinais, alterações metabólicas e sinais de complicações mais graves, como pancreatite. Nesse contexto, a medicina diagnóstica tem papel importante ao apoiar a investigação de sintomas e contribuir para decisões mais rápidas e seguras ao longo do tratamento”, afirma Dr. Harley De Nicola. 

Com a popularização dessas medicações, os serviços de saúde já começam a perceber um novo perfil de paciente, mais atento à monitorização metabólica e, eventualmente, à necessidade de exames direcionados para avaliação do fígado, pâncreas e outras estruturas abdominais. Com isso, exames se consolidam como aliados, a medicina diagnóstica se consolida como aliada importante para apoiar decisões clínicas, diferenciar efeitos esperados de sinais de alerta e garantir mais segurança ao cuidado. 

Início e acompanhamento 

Entre os efeitos adversos mais comuns estão náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Em alguns casos, também podem surgir hipoglicemia, desidratação e perda de massa muscular, especialmente quando há redução importante da ingestão alimentar. Já entre as complicações mais graves, a pancreatite aguda se destaca como uma das principais preocupações, reforçando a necessidade de avaliação clínica cuidadosa e monitoramento contínuo.  

Antes de iniciar o tratamento, a recomendação é que o paciente passe por avaliação médica completa, incluindo exame físico, histórico clínico e exames laboratoriais básicos, como glicemia, função hepática, função renal e colesterol. Os exames de imagem podem ser indicados em suspeita de cálculos biliares. Ao longo do uso, o acompanhamento costuma ser individualizado, com consultas periódicas e monitoramento clínico e laboratorial conforme a evolução de cada paciente.  

Para o Dr. Harley De Nicola, o diagnóstico precoce é essencial para evitar a progressão de complicações. A identificação rápida de sinais de intolerância gastrointestinal pode impedir quadros de desidratação, enquanto o reconhecimento precoce de uma pancreatite, por exemplo, pode reduzir o risco de evolução para formas mais graves e até de internação.  

Outro ponto de atenção é que o emagrecimento acelerado pode mascarar ou retardar o diagnóstico de outras doenças. Sintomas como dor abdominal podem ser atribuídos apenas ao uso do medicamento, quando, na verdade, podem indicar condições mais sérias. Até mesmo a perda de peso, frequentemente esperada durante o tratamento, pode coincidir com distúrbios hormonais ou outras doenças, o que reforça a importância do acompanhamento médico contínuo.  

Além disso, nem todos os pacientes são elegíveis para esse tipo de terapia. Histórico de pancreatite, doenças gastrointestinais mais graves, gastroparesia, alterações na tireoide, risco de câncer de tireoide, além de gestação e amamentação, estão entre os fatores que exigem avaliação criteriosa antes da prescrição”, completa Dr. Harley.  

Sobre a FIDI 

Fundada em 1986 por médicos professores integrantes do Departamento de Diagnóstico por Imagem da Escola Paulista de Medicina – atual Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) –, a FIDI é uma Fundação privada sem fins lucrativos que reinveste 100% de seus recursos em assistência médica à população brasileira, por meio do desenvolvimento de soluções de diagnóstico por imagem, realização de atividades de ensino, pesquisa e extensão médico-científica, ações sociais e filantrópicas. Com mais de 2.100 colaboradores e um corpo técnico formado por mais de 500 médicos parceiros, a FIDI está presente em 100 unidades de saúde nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás. É a maior empresa especializada em diagnóstico por imagem do Brasil. Em 2025, foram 4,8 milhões de exames realizados - um crescimento de 11% em relação a 2024, entre ressonância magnética, tomografia computadorizada, ultrassonografia, mamografia, raios-X e densitometria óssea. Com soluções customizadas em diagnóstico por imagem, a FIDI oferece serviços de Telerradiologia, Gestão Completa, Consultoria, Educação Médica e Inteligência Artificial.  

A Fundação também trabalha na proposição de soluções inovadoras para a saúde pública, como sistema de análise de imagens de tomografia computadorizada por inteligência artificial e participou da primeira Parceria Público-Privada de diagnóstico por imagem na Bahia. Por duas vezes, a FIDI recebeu o prêmio Referências da Saúde 2019 e 2020, na categoria Qualidade Assistencial, e por três vezes foi medalhista em desafios internacionais de aplicação de inteligência artificial no diagnóstico por imagem, propostos na conferência anual da Sociedade Norte-Americana de Radiologia, considerado o maior congresso do setor no mundo. Ao final de 2020, a Central de Laudos da FIDI obteve a certificação ISO 9001:2015 de Gestão da Qualidade e em 2023 renovou a certificação, pela International Organization for Standardization e, em 2021, recebeu o selo de “Excelente Empresa Para se Trabalhar” (GPTW). 

Desde 2014 a FIDI atua no projeto da carreta-móvel ‘Mulheres de Peito’, parceria com o Estado de São Paulo, que oferece exames gratuitos de mamografia. Já são mais de 300 municípios atingidos, cerca de 300 mil mamografias, 7 mil ultrassons, 700 biópsias, e mais de 3 mil mulheres encaminhadas.