sábado, 24 de outubro de 2026

CULTURA

 

“Epifania” transforma criação, vazio e urgências do mundo contemporâneo em nova fábula musical


Com sete atores multi-instrumentistas, o novo espetáculo original de Vitor Rocha estreia em 28 de outubro, no Teatro Estúdio, e aborda criatividade, hiperconexão, solidão e a pressão para que tudo precise ter uma finalidade.

                                                                          André Leão 

O que acontece quando até aquilo que nasce do prazer, da curiosidade e da necessidade de criar passa a precisar de uma finalidade? É a partir dessa inquietação que nasce “Epifania - Uma Fábula Moderna”, novo musical original de Vitor Rocha, que estreia em 28 de outubro, no Teatro Estúdio, em São Paulo, onde cumpre temporada às quartas e quintas até 17 de dezembro. Com sete atores multi-instrumentistas em cena, o espetáculo, produzido pela Encanto Artístico Produções e Girassol Produções, mistura fantasia e questões profundamente contemporâneas como hiperconexão, FOMO, solidão, excesso de estímulos e a constante pressão por desempenho e validação para falar sobre criatividade. Os ingressos estão à venda pela Sympla.


A história se passa num tempo fictício, mas que se confunde com hoje em dia, o tempo do moderno, do consumo e da informação, onde Filipa, uma compositora vivida por Luiza Porto, se vê frente a frente com o destino que sempre desejou, mas a oportunidade que poderia mudar sua carreira também traz consigo uma espécie de bloqueio criativo que leva embora o seu dom para a música. Sua jornada, ao lado de seu vizinho Valério, interpretado por Diego Rodda, para recuperá-lo e colocar tudo nos eixos outra vez, inventa uma fábula épica que nos devolve ao tempo antes do tempo — quando tudo era apenas nada, um grande vazio — e ao encontro das criadoras de todos os conteúdos, as maiores, as primeiras, elas: Primas, vividas por Anna Toledo, Marília Lopes e Aline Cunha. O grande vazio e o seu poder de se alastrar sempre encontram uma brecha, é assim desde antes de tudo e será enquanto houver o que há. Mas a essência nunca se engana e uma epifania pode ser a saída de todos os problemas, Filipa só precisa criar!


Sem demonizar a tecnologia ou transformar suas provocações em discurso moralista, o musical aproxima a fábula das inquietações de uma geração permanentemente conectada. Seus personagens convivem com notificações, distrações, comparação, pressa e a sensação de que alguma coisa mais importante pode estar acontecendo em outro lugar. Ao mesmo tempo, a obra chama atenção para uma contradição cada vez mais presente: sabe-se muito sobre aquilo que acontece do outro lado do mundo e, muitas vezes, quase nada sobre quem está logo ao lado.


Esse conflito também determina a própria forma de contar a história. Marco França e Laura Castro interpretam Verso e Fábula, dois narradores que discordam continuamente sobre como a trama deveria avançar. Enquanto um quer chegar diretamente ao que considera importante, o outro reivindica o tempo da fantasia, dos começos, das imagens e da construção de uma história. Em meio a esse embate, a dramaturgia brinca com as convenções do próprio teatro propondo uma valiosa reflexão sobre a forma e o conteúdo em tempos de tanta criação de conteúdo.


A música ocupa lugar central nessa construção. Os sete integrantes do elenco são multi-instrumentistas e transitam por diferentes instrumentos ao longo do espetáculo. O grupo reúne artistas que, para além da interpretação, também se dividem entre a composição, a escrita e outras frentes criativas, conduzindo uma trilha sonora original que inclui ainda passagens instrumentais e abre espaço para que o som, o silêncio e o tempo também conduzam a narrativa, sem a necessidade permanente da palavra.


Essa ideia se estende visualmente ao palco. É desse espaço vazio que ambientes e imagens vão sendo construídos diante do público, em uma concepção que acompanha a própria origem da história: tudo começa no nada, a partir da página em branco, e ganha forma a partir da criação. A direção de movimento é de Fabrício Licursi, enquanto os arranjos musicais são assinados por Marco França.


“Epifania” marca também um novo momento autoral na trajetória de Vitor Rocha. Premiado por trabalhos no teatro musical e responsável por títulos que ganharam diferentes temporadas e montagens dentro e fora do país, o artista chega com a obra ao décimo espetáculo de sua autoria encenado e retorna a uma criação inteiramente própria depois de cerca de dois anos dedicados também à retomada de trabalhos anteriores e a projetos desenvolvidos para outros contextos. Embora Filipa seja uma compositora, e não um dramaturgo, Rocha reconhece nela conflitos muito próximos daqueles que atravessaram seu próprio processo criativo.


“Eu acho que nunca fiz um espetáculo tão pessoal na minha vida. É a minha cabeça aberta ali no palco, nessa história. O meu processo criativo visto de dentro”, afirma Vitor. A ideia de criar as “Primas” surgiu ainda em janeiro, mas foi no fim de julho que o autor decidiu transformar aquele universo em seu próximo musical. Texto, músicas e letras ganharam forma em um mergulho concentrado durante o mês de agosto e chegaram à sala de ensaio ainda abertos ao encontro com os demais criadores da montagem.


O próprio título parte dessa relação com a criação. Epifania remete ao instante de uma percepção súbita, quando algo até então disperso parece finalmente ganhar forma e sentido. Na dramaturgia de Rocha, alcançar essa essência está menos relacionado ao resultado produzido a partir de um talento do que à possibilidade de reconhecer aquilo que cada pessoa é capaz de colocar no mundo.


“Pensei muito durante esse processo: o que seria alcançar a minha essência? E acabei concluindo que a minha essência é fabulosa e fabulesca, é assim que as coisas ganham forma através de mim”, explica.


Entre fantasia e realidade, “Epifania” transforma o vazio em possibilidade. Em vez de oferecer respostas prontas sobre produtividade, tecnologia ou criação, o musical propõe um olhar para aquilo que pode desaparecer quando todas as experiências passam a ser medidas por resultado, velocidade ou utilidade. E para o que talvez ainda possa nascer quando existe espaço suficiente para que uma fagulha permaneça acesa.


Epifania - Uma Fábula Moderna


Estreia: 28 de outubro de 2026

Temporada: até 17 de dezembro

Sessões: quartas e quintas às 20h

Local: Teatro Estúdio

R. Conselheiro Nébias, 891 - Campos Elíseos, São Paulo - SP, 01203-001

Ingressos: R$ 120,00 [inteira] R$ 60,00 [meia]

Vendas: Sympla

https://bileto.sympla.com.br/event/127008

Classificação: livre

SAÚDE

 Reutilizar antibióticos de tratamentos anteriores para rinite ou sinusite é um erro grave, alerta especialista 

Magnific

Otorrinolaringologista explica os sinais de cada quadro, alerta para os riscos da automedicação e orienta sobre prevenção em casa

Nariz entupido, dor de cabeça e nariz escorrendo costumam ser tratados como a mesma coisa, mas podem indicar problemas diferentes. Rinite e sinusite são inflamações, e a confusão entre elas leva muita gente a recorrer a antibióticos que sobraram na “farmácia de casa”, uma prática que pode trazer riscos à saúde.

Segundo a Dra. Leila Crisigiovanni, médica otorrinolaringologista e membro da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), a diferença está no local da inflamação. 

“A rinite atinge a mucosa do nariz e provoca espirros, coceira, coriza e nariz entupido. Já a sinusite acomete os seios da face, cavidades ao redor do nariz, e costuma causar dor ou pressão no rosto, secreção espessa e, muitas vezes, dor de cabeça”, explica.

Em alguns casos é possível ter rinite e sinusite ao mesmo tempo. Leila acrescenta que uma crise alérgica não tratada pode inflamar a mucosa, bloquear a drenagem dos seios nasais e favorecer a evolução para sinusite. 

“Quando o nariz está muito inchado, as secreções ficam retidas nos seios da face, e esse ambiente facilita a proliferação de microrganismos”, afirma a especialista.

É vírus ou bactéria?

Na maioria dos casos, o quadro é viral e passa em até dez dias. Já uma possível infecção bacteriana pode ser caracterizada com alguns sinais como febre alta, dor facial intensa e piora após uma aparente melhora inicial.

Automedicação com antibiótico que “sobrou’

A automedicação ainda é uma prática comum, principalmente com aqueles remédios que acabam sobrando na “farmácia de casa”. No entanto, a especialista adverte que o uso indiscriminado de antibióticos é um erro grave, já que o medicamento acaba sendo utilizado frequentemente de forma inadequada.

“É importante destacar que o antibiótico não trata rinite alérgica nem quadros virais. Além disso, a dose e o tempo de uso ficam inadequados, o que pode mascarar sintomas, atrasar o diagnóstico correto e contribuir para a resistência bacteriana”, alerta a otorrino. Também há risco de reações alérgicas e efeitos colaterais.

Posso usar descongestionante?

Para os fãs dos descongestionantes nasais também é importante algumas orientações. O alívio é rápido, mas o uso prolongado pode causar a chamada rinite medicamentosa, em que o nariz passa a depender do remédio para desobstruir, o que piora a congestão. “Muitos pacientes sentem que o nariz ficou ‘viciado’. Esse tipo de produto deve ser usado só por poucos dias e com indicação médica”, ressalta.

Prevenção começa em casa

Para reduzir as crises alérgicas, Leila recomenda: - Controlar os ácaros, utilizando capas antiácaro em colchões e travesseiros e lavando a roupa de cama semanalmente em água quente; - Evitar tapetes, cortinas pesadas e bichos de pelúcia nos quartos; - Limpar a casa com pano úmido, evitando vassoura e espanador, que espalham poeira; - Manter os ambientes ventilados e livres de mofo; - Beber bastante água e manter as vias aéreas hidratadas; - Evitar fumaça de cigarro e odores fortes.

Soro fisiológico: seguro para todas as idades

A lavagem nasal com soro fisiológico é uma das medidas mais recomendadas para reduzir o risco de gripes, resfriados, sinusites e outras infecções respiratórias. O hábito pode ser incorporado à rotina de higiene diária e ajuda a manter a barreira natural do nariz funcionando adequadamente.

O soro fisiológico pode e deve ser usado durante todo o ano, é seguro e bem tolerado para todas as idades, desde bebês até idosos.

“A lavagem nasal diária ajuda a manter a mucosa hidratada e protegida, independentemente da estação", finaliza a especialista.



SAÚDE

Wellbeing estratégico questiona limites das ações tradicionais de saúde mental

Empresas ampliam iniciativas de cuidado, mas começam a avaliar também como carga de trabalho, liderança e organização das atividades afetam o bem-estar das equipes

Terapia, programas de atividade física, aplicativos de meditação e campanhas de saúde mental ganharam espaço nas empresas nos últimos anos. Essas iniciativas continuam fazendo parte das políticas de cuidado, mas uma questão começa a ganhar espaço entre profissionais de RH: até que ponto essas ações conseguem enfrentar problemas que têm origem na própria rotina de trabalho?

É nesse contexto que o conceito de wellbeing estratégico vem sendo discutido. A abordagem amplia o olhar sobre o bem-estar dos trabalhadores e considera também fatores como a organização das atividades, carga de trabalho, autonomia, relações com a liderança e condições oferecidas aos profissionais.

A discussão acompanha o avanço do debate sobre saúde mental relacionada ao trabalho. Em 2026, a Fundacentro, instituição pública vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego e especializada em segurança e saúde do trabalhador, publicou orientações relacionadas à aplicação da NR-1 e aos riscos psicossociais, destacando a importância de analisar a organização e a gestão do trabalho.

Para Francielli Vitali, Head de Negócios da ESSET, essa mudança exige que as empresas olhem para além das iniciativas individuais de cuidado. Os programas de saúde e qualidade de vida continuam sendo importantes, mas eles precisam estar acompanhados de uma análise das condições em que as pessoas trabalham. Quando existe um fator relacionado à própria organização do trabalho, não é possível tratar a questão apenas como um problema individual.

O que os benefícios não conseguem resolver sozinhos

Um programa de atividade física pode contribuir para a saúde. O atendimento psicológico pode oferecer suporte. Uma campanha de conscientização pode ampliar o conhecimento sobre saúde mental. Nenhuma dessas iniciativas, porém, substitui a avaliação de problemas relacionados à própria rotina de trabalho.

Uma equipe submetida a excesso de demandas, por exemplo, pode receber treinamento sobre gerenciamento do estresse. Se a origem do problema estiver no volume de atividades, na falta de pessoal ou na definição das metas, a intervenção precisará considerar esses fatores.

Por isso, a análise pode envolver informações como absenteísmo, afastamentos, turnover, presenteísmo, pesquisas de clima e relatos de situações de assédio.

O objetivo não é abandonar os programas de qualidade de vida, mas entender qual problema cada iniciativa pretende enfrentar e se a medida adotada é compatível com a origem desse problema.

“Uma empresa pode oferecer diferentes formas de apoio e ainda assim ter uma equipe exposta a uma rotina de sobrecarga. O primeiro passo é entender o que está acontecendo e quais fatores estão relacionados àquela situação. Só depois é possível definir quais medidas fazem sentido.”

A organização do trabalho entra na discussão

A mudança também aparece na forma como os riscos psicossociais vêm sendo tratados no Brasil.

A nova redação da NR-1 entrou em vigor em 26 de maio de 2026 e incluiu os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. O Ministério do Trabalho e Emprego também disponibiliza orientações específicas sobre a aplicação do capítulo da norma relacionado ao tema.

As orientações da Fundacentro reforçam que a avaliação deve considerar a organização e a gestão do trabalho, além da participação dos trabalhadores no processo. Isso aproxima a discussão sobre bem-estar de áreas que nem sempre trabalham juntas: Recursos Humanos, Saúde e Segurança do Trabalho, liderança e gestão de riscos.

Também muda a forma de interpretar alguns indicadores. Em vez de observar apenas a utilização dos programas oferecidos, a empresa pode cruzar essas informações com dados de saúde, clima e percepção das equipes para identificar situações que merecem atenção.

Um desafio para o RH

A discussão sobre wellbeing estratégico acontece, portanto, em um momento em que as empresas precisam conciliar duas frentes: oferecer suporte aos trabalhadores e identificar fatores da própria organização que podem estar relacionados ao desgaste.

Para o RH, isso significa trabalhar com informações de diferentes áreas e evitar que a saúde mental seja tratada apenas como uma questão individual.

“O papel do RH é importante justamente porque ele consegue conectar informações que muitas vezes ficam separadas. Dados de absenteísmo, afastamentos, clima, turnover e percepção das equipes podem ajudar a identificar padrões e indicar onde a empresa precisa aprofundar o diagnóstico.”

Mais do que ampliar a oferta de benefícios, o wellbeing estratégico propõe olhar para a relação entre pessoas, trabalho e ambiente organizacional. “A discussão passa a considerar, além do que a empresa oferece para cuidar dos funcionários, quais condições de trabalho estão sendo criadas e o que pode ser feito para melhorá-las”, finaliza Francielli