sábado, 6 de junho de 2026

DIREITO & TRIBUTAÇÃO

 Autistas e a nova regra da reforma tributária: inclusão ou exclusão?




Cláudio Carneiro


Temas afetos à reforma tributária tendem a ser complexos, pois o assunto vem envolto em tecnicalidades, percentuais e regras que, à primeira vista, parecem reservadas aos especialistas. Mas quando uma norma toca a vida de pessoas, como por exemplo, o autismo, o debate deixa de ser abstrato. Isso porque o tema entra nos lares, na rotina das famílias, no esforço diário de quem precisa de apoio para viver com a dignidade prevista no texto constitucional brasileiro.

A Reforma Tributária trouxe a redução a zero das alíquotas dos novos tributos (IBS e CBS) na compra de veículos novos para pessoas com deficiência e Transtorno do Espectro Autista (TEA). No entanto, a regra gerou debate ao restringir o benefício apenas para autistas com níveis 2 e 3, excluindo os de suporte de nível 1. Por esse motivo, entidades de defesa dos direitos das pessoas com deficiência acionaram o STF questionando a  constitucionalidade de referida exclusão. 

É impossível olhar para esse tema sem enxergar o impacto humano que ele carrega. Para muitas famílias, o carro não é luxo, não é conforto, não é símbolo de status. É ferramenta de sobrevivência e de dignidade. É o meio de levar o filho à terapia, à escola, ao médico, às consultas de rotina e aos compromissos que sustentam uma vida minimamente organizada. Quando a legislação tributária cria barreiras para esse acesso, ela não está apenas regulando um mercado. Está interferindo diretamente na autonomia, na mobilidade e na inclusão de pessoas que já enfrentam desafios suficientes.

Como advogado tributarista há 28 anos, preciso me ater as questões legais e constitucionais afetas ao tema. É justamente nessa linha técnica que não posso concordar com qualquer modelo de exclusão que transforme o autista nível 1 em alguém menos digno de proteção jurídica relacionada a um benefício fiscal. O erro começa justamente aí: na ideia de que, por apresentar um grau de suporte considerado mais leve, essa pessoa teria menos necessidade de amparo do Estado. Até porque, a Lei nº 12.764/2012 não diferencia níveis para reconhecimento da deficiência. Essa leitura é não apenas injusta, mas também superficial e, sobretudo, inconstitucional. O autismo não se mede apenas pela aparência externa, pela capacidade de falar, estudar ou trabalhar. Há dificuldades sensoriais, emocionais, sociais e funcionais que não aparecem de imediato, mas que atravessam toda a vida da pessoa e de sua família.

A não inclusão do benefício tributário, nesse contexto, produz um efeito perverso. Ela seleciona quem merece ou não o benefício com base em uma visão estreita, como se a proteção jurídica pudesse ser distribuída por comparação simplista entre “casos mais graves” e “casos menos graves”. A Constituição, no entanto, nos ensina outro caminho. O da dignidade da pessoa humana, da igualdade material e da proteção às diferenças reais. Tratar de forma igual pessoas que vivem situações desiguais não é justiça; é indiferença.

Há também um aspecto social que não pode ser ignorado. O transporte adequado é condição para acesso à saúde, à educação, ao trabalho e à vida comunitária. Em muitas famílias com autistas, o deslocamento exige planejamento, previsibilidade e segurança. O transporte coletivo, muitas vezes, não atende às necessidades sensoriais e comportamentais da pessoa com TEA. O veículo próprio passa a ser, então, um recurso de inclusão, não um luxo fiscal. Negar isso é desconhecer a realidade concreta de milhares de brasileiros.

Quando o Estado restringe benefícios com base em uma lógica fria e padronizada, ele corre o risco de aprofundar desigualdades que já existem. A exclusão tributária não pesa da mesma forma sobre todos. Para famílias com maior poder econômico, ela pode significar apenas um custo adicional. Para famílias que já vivem no limite, pode representar o adiamento de tratamentos, o aumento da sobrecarga e a perda de uma importante ferramenta de autonomia. É por isso que, em matéria tributária, sensibilidade social não é um detalhe. É um dever.

Também me preocupa o modo como esse debate costuma ser conduzido. Muitas vezes, a discussão sobre benefícios fiscais é tratada como se estivesse diante de um privilégio indevido. Não está. Está diante de uma medida de justiça compensatória. A finalidade não é favorecer indevidamente um grupo, mas reconhecer que certas condições exigem tratamento diferenciado para que a igualdade seja, de fato, alcançada. O autismo, em qualquer nível, exige uma resposta jurídica que olhe para a pessoa real, e não para uma definição burocrática descolada da vida.

Se a reforma tributária pretende modernizar o sistema, ela precisa ser moderna também no sentido humano. Um texto legal não pode ser considerado avançado se ignora a experiência de quem será atingido por ele. Nenhuma política pública será legítima se, em nome da simplificação, sacrificar a proteção de quem mais depende dela.

Por isso, a pergunta que precisa ser feita não é apenas se a regra arrecada mais ou menos. A pergunta correta é: ela promove inclusão ou reforça exclusão? Ela reconhece a diversidade do espectro autista ou cria um filtro injusto que deixa pessoas de fora? Ela respeita a dignidade das famílias ou transfere para elas o peso de uma racionalidade fiscal insensível?

Como tributarista, entendo que o direito tributário não pode se afastar da realidade social. E, como cidadão, não aceito que uma regra fiscal sirva para dizer, na prática, que algumas pessoas com autismo não precisam da mesma proteção jurídica que outras. O caminho constitucional é exatamente o oposto: proteger, incluir e corrigir desigualdades, e não ampliá-las.


Por Claudio Carneiro

(Advogado e PhD em Direito)

@claudiocarneirooficial


CULTURA

 Festival Feira Preta reúne mais de 30 mil pessoas e impulsiona a economia preta em seu retorno ao Rio de Janeiro

Após 10 anos, o maior festival de cultura negra da América Latina ocupou a Pequena África com música, debates e empreendedorismo, projetando uma movimentação de R$ 8 milhões ao longo do evento.

O Feira Preta Festival consolidou o sucesso de seu aguardado retorno à capital fluminense, reunindo mais de 30 mil pessoas ao longo de três dias de programação gratuita na região portuária do Rio de Janeiro. Ocupando pontos emblemáticos como o Píer Mauá, o Armazém Kobra e o circuito histórico da Pequena África, o evento reafirmou sua posição como a principal plataforma de economia criativa e cultura afro-diaspórica do país. 

Além de celebrar a ancestralidade e a inovação negra, o festival funcionou como um motor de impacto econômico vital para o ecossistema. A estimativa da organização aponta para uma projeção de movimentação financeira de até R$ 8 milhões em vendas realizadas ao longo do evento, impulsionando diretamente fornecedores, artistas, prestadores de serviço e os cerca de 150 empreendedores de diversos estados que apresentaram suas marcas e produtos. 

“Retornar ao Rio depois de 10 anos é reconhecer a força desse território na formação da cultura negra brasileira. A Pequena África é um símbolo vivo de memória e resistência, mas também de futuro. Ver essa engrenagem girar, gerando circulação monetária e prosperidade para os nossos, é a confirmação de que a força da cultura preta move economias, redes e realidades. Mostramos, mais uma vez, que quando a economia preta se encontra, ela projeta novas possibilidades de desenvolvimento e cria futuros”, Adriana Barbosa, fundadora do Feira Preta Festival

Domingo de grandes debates e potência empreendedora

O último dia de programação, no domingo, foi marcado por debates de alto impacto e forte circulação de público na feira de empreendedores, que reuniu o melhor da moda, gastronomia, design e literatura autoral. Entre os grandes destaques dos talks, o painel “Travessias Negras: encontros com a própria história” trouxe o humorista e ator Paulo Vieira e Rei Black ao palco Zungu do Armazém 1 para uma reflexão profunda e bem-humorada sobre identidade, memória e trajetórias pessoais. 

"A Feira Preta é uma iniciativa importante, que se mantém todos os anos e que desperta em nós essa vontade de está em comunidade. Essas ações que são oficiais da nossa comunidade são muito importantes. Fiquei muito feliz de ver a quantidade de crianças aqui, fiquei pensando: cara, se algum dia eu tiver um filho, vou trazer ele aqui, vai crescer aqui. É muito importante isso, ver o nosso povo, reunir a comunidade. É a coisa mais linda!”, explicou o ator

“Toda cultura brasileira tem fundamento religioso. O samba, o carnaval, o maracatu, o boi. Toda a cultura brasileira é baseada na espiritualidade. E isso foi de uma sabedoria e de uma tecnologia tão linda, que o negro brasileiro hoje, mesmo que não seja um cara espiritualizado, está vivendo a sua espiritualidade quando vai no samba, quando vai em uma roda, em uma catira, no coco, em uma congada. A gente espalhou a nossa espiritualidade por toda a nossa cultura”, conclui

Encontros históricos encerram a noite no palco

A despedida musical do festival no domingo foi um tributo vibrante ao protagonismo feminino negro e às gerações que constroem a música brasileira. O Palco Pedra do Sal, no Armazém Kobra, foi cenário de apresentações memoráveis que emocionaram a multidão. 

A mestre do samba Leci Brandão subiu ao palco comandando um encontro geracional inesquecível ao convidar as cantoras Marina Iris e Geovana. Logo em seguida, o encerramento oficial do festival ficou por conta de Teresa Cristina, que dividiu o microfone com as consagradas Áurea Martins e Rita Beneditto, em uma celebração emocionante à resistência cultural e à ancestralidade. 

"Fazer show na Feira Preta é uma forma de se lembrar da vida desses mais de 80 anos. Não é a primeira vez que me apresento no evento, mas aqui no Rio de Janeiro é sempre diferente. Espero que, com a minha trajetória e com a minha arte, eu tenha conseguido ajudar as pessoas que estão na periferia, na favela e na roda”, compartilhou Leci.

Integrado à iniciativa "Viva Pequena África" do BNDES, o Feira Preta Festival encerra sua edição histórica no Rio de Janeiro deixando um legado permanente de articulação cultural, fomento a pequenos negócios e fortalecimento de redes econômicas para a população negra.

EDUCAÇÃO

 ESCOLA ELEVA AMPLIA INICIATIVAS DE EXTENSÃO EM PROGRAMA DE INTEGRAÇÃO ESCOLA-COMUNIDADE

Parcerias realizam melhorias de infra-estrutura e apoio pedagógico em rede pública de ensino, promovem aulas de idiomas e fortalecimento de competências e ainda mantêm campanha de saúde

 

A Escola Eleva amplia seu programa de integração escola-comunidade com mais uma iniciativa de extensão em parceria com organizações não-governamentais de referência no Rio de Janeiro. A escola já atua com o Instituto Reação, a ONG Cidadão Pró-Mundo e o Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz e une-se também ao Desafio nas Escolas em mais uma ação de impacto social.

 

“A escola tem o poder de impulsionar mudanças. Por meio da dedicação dos nossos alunos e das parcerias com instituições sociais promovemos experiências muito enriquecedoras para a nossa comunidade escolar e para a sociedade como um todo. Educar só faz sentido quando há uma conexão genuína com a sociedade em que estamos inseridos”, destaca Amaral Cunha, diretor da Escola Eleva Botafogo.

 

Com o Desafio nas Escolas, a Eleva Botafogo integrou os estudantes em projetos de impacto social na rede pública de ensino. Alunos da Eleva e do CIEP Presidente Tancredo Neves revitalizaram um espaço abandonado, transformando-o em uma horta, enquanto o CIEP Henfil foi beneficiado pelo projeto com a reestruturação de uma sala multissensorial voltada à acessibilidade e inclusão e outras três ações estão previstas para acontecer ao longo do ano.

 

A escola de ensino bilíngue e em tempo integral promove a participação de seus estudantes como voluntários para formação em inglês de colaboradores, filhos de colaboradores e jovens de escolas públicas ou que tenham estudado em escolas particulares com bolsa integral. A unidade disponibiliza também infra-estrutura e com a parceria da Cidadão Pró-Mundo, maior ONG de ensino de inglês do Brasil, fortalece o compromisso com a educação e o desenvolvimento social de sua comunidade.

 

A Escola Eleva também trouxe o Instituto Reação para dentro das suas dependências para aplicar um programa direcionado ao fortalecimento de competências de liderança de estudantes, incentivando protagonismo, responsabilidade e engajamento cívico. O programa leva os estudantes a sede da ONG na Rocinha para troca de experiências, integrando realidades.

 

Em uma terceira frente de responsabilidade social, a instituição mantém uma campanha contínua de arrecadação de leite em pó com o Instituto Fernandes Figueira, reforçando seu compromisso com parcerias com instituições de referência em saúde pública. 

CIDADE

PIONEIRISMO NA HOTELARIA DA BARRA DA TIJUCA:

RIBALTA ADOTA ESCALA DE TRABALHO 5X2


 O hotel implementou a escala 5x2 para 70% do seu quadro operacional.  Em março do ano passado, o hotel já havia sido um dos primeiros entre os empreendimentos da região a estabelecer o fim da jornada de trabalho 6x1 e implementar a escala 12x36. Agora, com a nova medida, o Ribalta Hotel reforça o pioneirismo no tema.

Em um setor conhecido pela rigidez da escala 6x1, o Ribalta decidiu priorizar o descanso e a saúde mental dos colaboradores. Essa transição tem sido realizada sob o conceito de "hospitalidade humanizada", defendendo que o cuidado com o hóspede começa no cuidado com quem serve.