quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CIDADE

      ENTREVISTA COM O SENADOR NEY SUASSUNA EM 1995

Ana Lúcia Souza Lima

A Barra da Tijuca é uma de suas preocupações. Senador pela Paraíba e fundador da Associação Comercial e Industrial da Barra da Tijuca (Acibarra), o professor Ney Suassuna luta intensamente pelo desenvolvimento e pela melhoria da qualidade de vida do bairro em que mora. De acordo com ele, a Barra é sinônimo de futuro e, por isso, merece cuidados especiais para que não acabe sendo vítima de um acelerado processo de crescimento e urbanização. Nesta entrevista, o senador analisa o potencial de toda a baixada de Jacarepaguá, fala do trabalho da Acibarra e dos planos para fazer da região uma verdadeira cidade.

Como surgiu a Acibarra?

- Ela foi criada há oito anos e surgiu da necessidade de se organizar e dividir a sociedade em grupos. Dessa forma, achamos mais fácil trabalhar em pról da Barra da Tijuca, visando ao desnvolvimento e à melhoria da qualidade de vida da região. A Acibarra é dividida em várias câmaras, como a Câmara dos Bares e Restaurantes, a Câmara da Construção Civil, a Câmara dos Condomínios, com 134 condomínios cadastrados, a Câmara Médica, com 160 médicos, a Câmara de Automóveis, que em breve será a bolsa de veículos do Rio, a Câmara dos Postos de Gasolina e a Câmara da Cultura. Hoje, temos mais de 900 associados.

Como funciona a Associação?

- São Várias frentes. Agora, por exemplo, estamos organizando a Câmara da Imprensa, para reunir todos os órgãos de comunicação da Barra, já que um de nossos objetivos é ajudar a formar uma comunidade esclarecida e culturalmente desenvolvida. Logo que nos organizamos, mandamos fazer uma grande pesquisa sobre o complexo lagunar, que ficou sob a responsabilidade da Uerj e custou US$ 30 mil. Esse estudo constatou que as favelas respondem por 90% da poluição do complexo lagunar e que apenas 10% da poluição é causada pelos condomínios. A pesquisa confirmou a necessidade de trabalhar na área social, um projeto que já existia na Acibarra. A Baixada de Jacarepaguá tem, atualmente, 114 favelas. Então, começamos a agir. Um de nossos trabalhos mais importantes foi a retirada das ocupações irregulares à beira da lagoa, nas proximidades do Via Parque. Fizamos umconvênio com a Rio Urbe e a Prefeitura. Investimos US$ 4 milhões e construímos 142 casas populares em Curicica, para fazer a acomodação da população carente. Entregamos as casas há cinco anos mas a Prefeitura só conseguiu retirar os invasores há alguns meses. Além de dar as casas, financiamos a mudança das famílias e vamos recuperar a área invadida, que será transformada em um parque ecológico. Nesse campo, temos vários outros projetos. Fazemos por exemplo, um trabalho em Rio das Pedras. Lá, estamos construíndo uma subsede da Acibarra, em convênio com o Rotary, que terá um consultório dentário e uma espécie de escola de formação de micro-empresários. O Sebrae e o Senac vão montar um centro de artesanato e habilitar os moradores da área a criarem microempresas. Rio das Pedras tem 0 mil habitantes, sendo que 50 mil deles são sanfoneiros que fazem um grande espetáculo. Fora a pesquisa sobre o sistema lagunarmos estudos na área dos transportes e da segurança também. Antes de defender os interesses das empresas da região, queremos defender os interesses de toda a população que vive na Baixada de Jacarepaguá.

E o que a Acibarra está fazendo pelos transportes e pela segurança?

- A Barra terá mais 300 mil pessoas em um prazo de cinco anos. Precisa, portanto, de mais transportes coletivos e vias de acesso. A duplicação da Avenida das Américas melhorou a situação, mas estamos lutando pela Linha Amarela e pelo aumento do número de linhas de ônibus. À noite, por exemplo, os garçons e funcionários dos shoppings encontram dificuldades de se locomoverem. Quanto à segurança, estamos apoiando o Barralerta, um movimento comunitário. O empresariado está colaborando com o 18º Batalhão e com a 16º DP, consertando e doando equipamentos.

E a cultura. Qual o seu espaço na Associação?

Estamos construíndo uma sede nova para a Acibarra, que ficará pronta no ano que vem. Nela, teremos um museu e uma academia de ciências e artes, o que ajudará no desenvolvimento cultural da região. Pretendemos promover exposições, palestras, debates e vários outros eventos ligados à arte e à cultura.

O senhor poderia traçar um painél da Barra de hoje?

- Ela cresce e supera-se a cada minuto. Atualmente, temos os melhores shoppings do Brasil. O BarraShopping, por exemplo é o maior da América Latina. Aqui também estão os maiores supermercados da cidade, a maior casa de shows, quatro universidades e alguns e mais tradicionais colégios carioca. Se falarmos de hospitais e centros médicos de excelência, a Barra pode orgulhar-se de ter os mais modernos: o Hospital Rio Mar, a Clínica São Bernardo e o Centro Médico do BarraShopping. Fora isso, é de uma beleza sem igual e consegue fazer com que a qualidade de vida de seus moradores seja, talvez a melhor do Rio. Trata-se de um lugar que precisa de cuidados para que fique ainda mais agradável e cheio de recursos. Não podemos deixar que a Barra perca todas essas qualidades com a rápida urbanização. Poucas cidades tem o privilégio de ter um espaço como este.

E quanto a emancipação? A Acibarra é a favor?

- Durante o primeiro governo Brizola, a prefeitura de Saturnino Braga ignorava a Barra da Tijuca, que era considerada elitista e burguesa.O Darcy Ribeiro mesmo disse isso há seis anos. Organizamos uma série de debates e fizemos estudos sobre o assunto. Fizemos um projeto econômico. Barra teria apenas cinco secretários e o menor número possível de vereadores, que ganhariam um salário bem abaixo do normal. A nossa arrecadação só perderia para o Rio e para Caxias. Pois é, aí começamos o trabalho prático pela emancipação. Visitamos milhares e milhares de eleitores e sempre tivemos resposta bastante favorável. Até que alguns amigos, motivados por interesses próprios, resolveram abrir um debate televisivo para todo o Rio, à revelia da chefia do movimento. Embalados por dois ou três empresários, conseguiram verba para a campanha. Esse foi o maior erro estratégico. O resto da cidade ficou contra e recebemos pressão por todos os lados. Acabamos ganhando a eleição mas não obtivemos o quórum necessário, que era de 13 mil votos mais um. Só que hoje quase todos os moradores querem a emancipação. Apesar daquela derrota, continuamos na luta.