quarta-feira, 29 de julho de 2026

GERAL

 Feedback sanduíche perde espaço para conversas mais diretas sobre desempenho

Levantamentos mostram que profissionais valorizam feedbacks mais objetivos, enquanto empresas repensam modelos tradicionais de avaliação e investem em conversas contínuas sobre desempenho

A forma como líderes conduzem conversas sobre desempenho está mudando. Métodos antes considerados boas práticas, como o chamado feedback sanduíche, técnica que intercala uma crítica entre dois elogios, vêm sendo revistos por empresas que buscam avaliações mais transparentes, objetivas e voltadas ao desenvolvimento contínuo dos profissionais. 

A mudança acompanha uma transformação na percepção dos próprios profissionais. Pesquisa da Harvard Business Review revela que 72% dos colaboradores acreditam que teriam um desempenho melhor se recebessem feedbacks corretivos mais diretos e fundamentados. O resultado reforça a preferência por conversas claras, capazes de indicar com precisão o que precisa ser mantido e o que deve ser aprimorado. 

Os desafios, no entanto, vão além do formato da conversa. Dados da Gallup mostram que apenas 26% dos colaboradores concordam plenamente que os feedbacks recebidos os ajudam a trabalhar melhor. O índice evidencia que, mais do que escolher uma metodologia, as empresas ainda precisam tornar essas conversas relevantes e efetivas para o desenvolvimento dos profissionais 

Apesar das críticas, o feedback sanduíche ainda tem espaço em muitas organizações. A técnica divide especialistas em gestão de pessoas entre aqueles que defendem seu potencial para tornar conversas difíceis mais acolhedoras e aqueles que acreditam que ela compromete a clareza da mensagem. 

Os defensores do modelo argumentam que ele ajuda a reduzir a postura defensiva do colaborador durante conversas delicadas. Ao iniciar o feedback pelo reconhecimento dos pontos fortes, o gestor tende a criar um ambiente de maior confiança, favorecendo a receptividade às oportunidades de melhoria. 

Já os críticos afirmam que o excesso de cautela pode comprometer a clareza da mensagem. Em alguns casos, o colaborador deixa a conversa sem compreender a dimensão do problema ou a urgência da mudança. Em outros, passa a enxergar os elogios apenas como um recurso para amenizar a crítica, o que reduz a credibilidade do reconhecimento. 

Na prática, a eficácia do feedback sanduíche depende do contexto, do perfil do colaborador e do objetivo da conversa. A abordagem pode ser útil para profissionais em início de carreira ou em momentos de desenvolvimento, quando uma condução mais cuidadosa favorece a assimilação das orientações. Já em equipes mais experientes ou diante de problemas que exigem mudanças rápidas de comportamento, a objetividade tende a produzir melhores resultados. 

Para Kauã Leandro, gerente de Novos Negócios do Trabalha Brasil (TBR), o debate sobre o feedback sanduíche reflete uma mudança mais ampla na gestão de pessoas. Na avaliação do executivo, as empresas têm deixado de buscar fórmulas prontas para investir em conversas mais consistentes, transparentes e alinhadas às necessidades de cada profissional. 

"O feedback sanduíche surgiu como uma tentativa de tornar conversas difíceis mais humanas e menos punitivas. Mas o perfil dos profissionais mudou. Hoje, o que eles esperam é clareza, objetividade e autenticidade. Quando o colaborador percebe que o gestor está apenas seguindo um roteiro, o elogio perde força e a conversa deixa de gerar confiança", afirma Leandro. 

Nesse cenário, ganha força um modelo baseado em conversas contínuas, em vez de avaliações concentradas em momentos formais. Para Leandro, o papel da liderança é adaptar a forma de conduzir o feedback ao contexto e às características de cada colaborador, sem recorrer a fórmulas prontas. 

"Mais importante do que escolher um modelo de feedback é garantir que essas conversas aconteçam com frequência e consistência. O desenvolvimento profissional ocorre quando os pontos fortes e as oportunidades de melhoria são tratados de forma contínua, no dia a dia, e não apenas em momentos formais de avaliação", conclui Leandro