Por que empresas estão apostando no feedforward para fortalecer a gestão de desempenho
Sem abandonar o feedback, organizações adotam conversas mais frequentes e voltadas ao futuro para desenvolver talentos, aumentar o engajamento e fortalecer a atuação das lideranças
O feedback continua sendo uma das ferramentas mais importantes da gestão de pessoas, mas a forma como ele é aplicado está mudando. Em vez de concentrar as conversas sobre desempenho em avaliações anuais, empresas têm apostado em encontros mais frequentes e focados no desenvolvimento contínuo. Nesse movimento, o feedforward ganha espaço ao incentivar líderes e colaboradores a discutirem os próximos passos da carreira, em vez de olhar apenas para erros e acertos do passado.
A mudança acompanha um cenário em que velocidade, adaptação e aprendizado constante passaram a ser fatores estratégicos para os negócios. Segundo a Deloitte, 61% dos gestores e 72% dos colaboradores afirmam não confiar nos atuais processos de avaliação de desempenho de suas organizações, indicando que os modelos tradicionais já não respondem às expectativas das empresas e dos profissionais.
Para Kauã Leandro, especialista em mercado de trabalho e gerente de Novos Negócios do Trabalha Brasil (TBR), o desafio não está em abandonar o feedback, mas em torná-lo uma ferramenta contínua de desenvolvimento.
"O feedback continua sendo indispensável, mas perde efetividade quando acontece apenas uma vez por ano ou somente diante de um problema. As pessoas precisam entender constantemente onde estão acertando, o que podem desenvolver e quais são os próximos passos para crescer dentro da organização. É justamente aí que o feedforward complementa esse processo."
Desenvolvimento contínuo substitui avaliações pontuais
A transformação dos modelos de gestão de desempenho acompanha as mudanças no mundo do trabalho. Equipes híbridas, inteligência artificial e novas competências exigidas pelo mercado tornaram o ciclo anual de avaliação insuficiente para acompanhar a evolução dos profissionais.
Enquanto o feedback ajuda a compreender situações que já aconteceram, o feedforward direciona a conversa para aquilo que pode ser feito dali em diante. Em vez de concentrar o diálogo apenas em falhas, líderes passam a discutir objetivos, oportunidades de desenvolvimento e ações concretas para melhorar resultados.
Esse formato também responde a uma demanda dos próprios profissionais. De acordo com a Gallup, colaboradores que recebem orientações frequentes têm 3,6 vezes mais chances de estar engajados no trabalho. Em um cenário em que o engajamento global caiu para 20%, o menor índice desde 2020, fortalecer o diálogo entre líderes e equipes tornou-se uma estratégia de negócios, e não apenas uma prática de Recursos Humanos.
"Quando a conversa acontece apenas durante a avaliação anual, muitas oportunidades de desenvolvimento já passaram. O acompanhamento contínuo permite corrigir rotas mais rapidamente, reconhecer bons resultados e construir planos de crescimento muito mais efetivos", afirma Kauã.
O desafio está na qualidade das conversas
Mais do que aumentar a frequência das reuniões entre líderes e colaboradores, especialistas destacam que a qualidade dessas conversas é determinante para o sucesso da gestão de desempenho.
Um dos erros mais comuns é transformar o feedback em um momento de cobrança. Comentários genéricos, ausência de exemplos concretos e foco excessivo nos erros fazem com que muitos profissionais associem esse processo a experiências negativas.
Na avaliação de Kauã Leandro, feedback e feedforward funcionam melhor quando fazem parte da rotina da equipe, e não apenas de momentos formais. "O colaborador precisa perceber que essas conversas existem para apoiar seu desenvolvimento e não apenas para avaliar seu desempenho. Quando o líder reconhece conquistas, orienta melhorias e ajuda a construir soluções para o futuro, cria-se uma relação de confiança que beneficia toda a equipe."
A tecnologia também começa a apoiar esse processo. Ferramentas baseadas em inteligência artificial conseguem organizar informações sobre desempenho, identificar padrões e sugerir planos de desenvolvimento, permitindo que os gestores dediquem mais tempo às pessoas e menos às tarefas administrativas. Ainda assim, especialistas alertam que nenhuma tecnologia substitui o papel da liderança na construção de confiança e no desenvolvimento dos profissionais.
Empresas como Adobe e Microsoft já reformularam seus modelos de avaliação para privilegiar conversas contínuas e focadas no crescimento dos colaboradores. Os resultados incluem redução da rotatividade, maior engajamento e fortalecimento da cultura organizacional.
Para Kauã Leandro, essa tendência deve se consolidar nos próximos anos. "O mercado está deixando para trás uma cultura baseada apenas na avaliação do passado e caminhando para um modelo em que o desenvolvimento acontece de forma permanente. As empresas que conseguirem transformar feedback e feedforward em práticas do dia a dia terão profissionais mais preparados, lideranças mais fortes e equipes muito mais engajadas."