Queda nas candidaturas de profissionais 60+ expõe novo desafio para o RH
Apesar de o IBGE apontar um recorde de idosos no mercado de trabalho, o volume de currículos em plataformas tradicionais despenca em 2026. Alta taxa de informalidade e retenção explicam o fenômeno que desafia a gestão de diversidade
O envelhecimento acelerado da população brasileira já é uma realidade nas mesas de decisão dos Diretores de Recursos Humanos (CHROs). Segundo dados do IBGE (Pnad Contínua) analisados pela Nexus, o número de trabalhadores com mais de 60 anos cresceu 53% nos últimos dez anos, somando quase 8,8 milhões de profissionais ativos. Hoje, uma em cada quatro pessoas nessa faixa etária está ocupada, a maior taxa da última década.
No entanto, um levantamento recente do Banco Nacional de Empregos (BNE) traz um paradoxo que deve colocar os recrutadores em alerta: o volume de candidaturas desse público em plataformas formais caiu pela metade. No primeiro semestre de 2025, o BNE registrou 29.088 candidaturas de profissionais seniores, no mesmo período de 2026, esse número recuou para 13.943.
O fantasma da informalidade e o viés dos algoritmos
O contraste entre o aumento de profissionais seniores na ativa e a queda no volume de currículos revela uma dinâmica desafiadora para as lideranças de gestão de pessoas. Essa desconexão reflete um misto de alta retenção de talentos no mercado formal e uma acentuada migração para o mercado invisível.
De acordo com um estudo da pesquisadora Janaína Feijó, do FGV IBRE, a informalidade atinge 53,8% dos trabalhadores 60+. Embora a "geração prateada" venha quebrando estereótipos em busca de autonomia e relevância econômica, a baixa escolaridade de parte desse grupo e o preconceito de idade ainda limitam o acesso a vagas formais e com melhores salários.
José Tortato, COO do BNE, afirma que as barreiras tecnológicas também contribuem para esse cenário. "A automação excessiva nos processos seletivos e o uso de Inteligência Artificial (IA) sem vieses auditados muitas vezes criam barreiras invisíveis para os profissionais seniores. Se o algoritmo desclassifica um currículo por causa de uma lacuna temporal ou do ano de formação, o profissional 60+ percebe que a plataforma formal não está gerando retorno e migra para o mercado informal ou para redes de indicação direta", analisa.
Para o executivo, essa redução no volume de candidaturas não deve ser interpretada como falta de interesse dos trabalhadores. "O RH precisa entender que a queda nas candidaturas não é falta de interesse do profissional, mas um sintoma de que os canais formais de recrutamento precisam ser mais inclusivos e humanizados."
Por outro lado, a queda acentuada nas candidaturas também pode indicar um fator positivo do ponto de vista de retenção: profissionais 60+ que já estão inseridos no mercado formal de trabalho estão trocando menos de emprego, priorizando a estabilidade em um cenário macroeconômico incerto.
Do operacional ao estratégico: o que o profissional sênior busca?
Os dados do BNE revelam que a busca por recolocação está concentrada em dois extremos bem definidos:
- O topo operacional: A profissão de motorista continua sendo a de interesse entre os profissionais 60+. Foram 1.452 candidaturas no primeiro semestre de 2025 e 674 em 2026. Funções como porteiro, auxiliar administrativo e assistente administrativo também se mantêm no topo, atraindo quem busca contratações mais diretas e rotinas estruturadas.
- A senioridade corporativa: Áreas técnicas de alta qualificação e gestão de risco, como engenharia civil e análise contábil, mantiveram volumes expressivos e estáveis (ambas acima das 300 candidaturas em 2026). Isso prova que a experiência de longo prazo ainda tenta cavar seu espaço no ecossistema corporativo tradicional.