Competências desenvolvidas fora do trabalho ganham espaço no mercado, mas ainda são pouco reconhecidas
Especialistas defendem que habilidades adquiridas em experiências pessoais podem contribuir para o desempenho profissional e merecem mais atenção nos processos de recrutamento
Organização, inteligência emocional, capacidade de adaptação, gestão do tempo e resiliência estão entre as competências mais valorizadas pelas empresas atualmente. Presentes em processos seletivos, avaliações de desempenho e programas de desenvolvimento, essas habilidades têm ganhado cada vez mais relevância em um mercado que busca profissionais preparados para lidar com ambientes complexos e em constante transformação.
O que nem sempre recebe a mesma atenção é a forma como essas competências são desenvolvidas. Embora muitas organizações associem esse aprendizado à experiência profissional, especialistas observam que diversas habilidades valorizadas pelo mercado também podem ser construídas em atividades realizadas fora do ambiente de trabalho.
Experiências como voluntariado, prática esportiva, participação em projetos sociais, empreendedorismo, cuidados familiares e outras responsabilidades pessoais frequentemente exigem competências semelhantes às demandadas pelas empresas. Ainda assim, esse repertório nem sempre é considerado durante processos de recrutamento e desenvolvimento de carreira.
Para Kauã Leandro, gerente de Novos Negócios do Trabalha Brasil (TBR), o mercado tem avançado na valorização das competências comportamentais, mas ainda há espaço para ampliar a compreensão sobre onde elas são desenvolvidas.
"Durante muito tempo, a carreira foi avaliada principalmente com base em formação acadêmica e experiência profissional formal. Hoje, as empresas buscam competências como adaptabilidade, organização, comunicação e inteligência emocional, que podem ser desenvolvidas em diferentes contextos da vida. O desafio está em reconhecer essas experiências de forma mais ampla", afirma.
Aprendizado que vai além do ambiente corporativo
O debate acompanha uma mudança na forma como as organizações enxergam o desenvolvimento profissional. Com a valorização crescente das chamadas soft skills, ganha força a percepção de que o aprendizado não acontece apenas em cursos, treinamentos ou experiências corporativas.
Um exemplo é a parentalidade. Pesquisa da IU International University of Applied Sciences, realizada com 4.480 trabalhadores, identificou que organização, gestão do tempo, paciência, capacidade de lidar com estresse, senso de responsabilidade, empatia e flexibilidade estão entre as principais habilidades que pais e mães afirmam levar para o ambiente profissional após a experiência de criar filhos.
O estudo aponta que mais da metade das mulheres entrevistadas percebeu fortalecimento da organização (54,4%) e da gestão do tempo (51%) após a parentalidade. Também foram mencionadas habilidades como paciência (46,2%), capacidade de lidar com situações de estresse (43,3%), senso de responsabilidade (40,7%), empatia (37,4%) e flexibilidade (37,2%).
Segundo Leandro, a pesquisa ilustra como experiências pessoais podem contribuir para a construção de competências cada vez mais valorizadas pelas empresas.
"Quando analisamos as habilidades mais procuradas pelo mercado, percebemos que muitas delas são desenvolvidas em situações cotidianas que exigem responsabilidade, tomada de decisão, resolução de problemas e adaptação constante. Essas competências não surgem exclusivamente dentro das organizações", explica.