terça-feira, 9 de junho de 2026

ESPORTE

 Decidir sem todas as respostas: 6 lições de Guga Kuerten para líderes em tempos de incerteza

Tricampeão de Roland Garros compartilhou no Senior Experience aprendizados sobre adaptação, resiliência e tomada de decisão sob pressão que podem ser aplicados ao mundo dos negócios

Em um cenário empresarial marcado por transformações constantes, pelo avanço da inteligência artificial, por mudanças aceleradas de mercado e pela pressão crescente por resultados, esperar ter todas as respostas antes de tomar uma decisão pode ser um dos maiores riscos para uma liderança. Foi justamente sobre esse desafio que o ex-tenista Gustavo Kuerten refletiu durante sua participação no Senior Experience, evento promovido pela Senior Sistemas, em maio no Transamérica Expo Center, em São Paulo.

Diante de uma plateia formada por executivos, empresários e líderes de diferentes setores, Guga compartilhou histórias dos momentos mais decisivos de sua carreira para mostrar que a alta performance raramente nasce da certeza absoluta. Ela surge da combinação entre preparação, capacidade de adaptação e confiança para agir mesmo diante do desconhecido.

“Hoje as consequências das decisões estão cada vez mais distantes do nosso controle. A gente faz uma pequena parte e, ao mesmo tempo, precisa criar uma convicção tão forte que consegue transmitir tranquilidade e confiança”, afirmou.

A reflexão encontra eco em uma realidade comum aos líderes corporativos. Em um ambiente de negócios cada vez mais complexo, o papel do gestor deixou de ser encontrar respostas perfeitas e passou a ser interpretar cenários, ajustar rotas rapidamente e mobilizar equipes diante das incertezas.

A importância de ler o cenário em tempo real

Ao relembrar sua histórica vitória sobre o russo Yevgeny Kafelnikov em Roland Garros, em 1997, quando ainda era um jovem desconhecido no circuito internacional, Guga revelou que entrou em quadra acreditando que não tinha chances reais de vencer.

O que mudou o rumo da partida não foi um plano milagroso, mas a capacidade de observar sinais durante o jogo. “Eu estava perdendo por dois sets a um quando percebi um detalhe: ele respirou fundo. Aquilo mostrou que ele também estava sofrendo. Foi o sinal que eu precisava”, lembrou.

Para o ex-tenista, a principal habilidade em situações complexas é manter a atenção constante ao ambiente e às mudanças de contexto: “É fundamental estar disposto a observar o cenário o tempo inteiro e estar atento às mudanças.”

A lógica é semelhante à vivida por empresas diante de mercados voláteis. Nem sempre o diferencial está na estratégia inicial, mas na capacidade de interpretar novos sinais e reagir antes da concorrência.

Quando o plano precisa mudar

Outro aprendizado compartilhado por Guga diz respeito à necessidade de abandonar rapidamente estratégias que não funcionam.

Ao lembrar dos confrontos contra Pete Sampras, um dos maiores nomes da história do tênis, o brasileiro contou que precisou perder diversas vezes até encontrar uma forma competitiva de enfrentá-lo.

“Eu tentava de um jeito, depois de outro, até encontrar uma forma de ganhar mais tempo e entrar na disputa. Quando consegui isso, percebi que tinha chance.”

Segundo ele, a repetição de experiências constrói repertório para lidar com situações futuras.

No mundo corporativo, essa lógica se traduz na importância de testar, aprender e ajustar continuamente. Empresas que interpretam erros apenas como fracassos tendem a perder oportunidades de aprendizado e evolução. Já organizações que transformam experiências em aprendizado aumentam sua capacidade de resposta diante dos desafios.

Instinto ajuda. Planejamento é obrigatório.

Durante a conversa, um dos temas centrais foi a relação entre planejamento e intuição. Para Guga, existe espaço para ambos, mas eles desempenham papéis diferentes. “O instinto ajuda nos dias especiais. O plano orienta. Ele é obrigatório.”

O tricampeão destacou que os maiores atletas da história se diferenciam justamente pela quantidade de alternativas que conseguem acessar diante de um problema inesperado. 

“Federer, Nadal, Djokovic, Alcaraz. Eles são incríveis porque têm milhares de planos prontos na cabeça.”

A mensagem dialoga diretamente com a realidade dos negócios. Em tempos de transformação digital e inovação acelerada, as empresas mais resilientes não são necessariamente aquelas que acertam sempre na primeira tentativa, mas as que desenvolvem diferentes caminhos para atingir seus objetivos.

Resiliência como vantagem competitiva

Ao longo da masterclass, Guga também reforçou que a persistência continua sendo uma das competências mais subestimadas da alta performance.

Ele relembrou derrotas duras, partidas perdidas por detalhes e momentos em que parecia impossível alcançar seus objetivos. Em vez de interpretar esses episódios como pontos finais, ele transformou cada experiência em combustível para evoluir.

“Tem que persistir. Sempre tem um jeito.”

A frase resume uma das mensagens mais relevantes para executivos que enfrentam cenários adversos: resultados extraordinários raramente são construídos por trajetórias lineares. Eles costumam ser consequência da capacidade de continuar avançando, mesmo quando os resultados ainda não apareceram.

Nenhuma grande conquista é individual

Outro ponto destacado por Guga foi o papel das pessoas na construção da excelência.

Ao recordar sua trajetória, ele atribuiu parte significativa de seus resultados à rede de apoio formada por treinadores, familiares, amigos e profissionais que estiveram ao seu lado ao longo da carreira.

“Não tem como chegar a um desafio do tamanho do mundo e fazer sozinho.”

Para líderes empresariais, o recado é claro: decisões complexas exigem inteligência coletiva. Em um contexto onde o conhecimento está cada vez mais distribuído, a capacidade de formar times complementares e construir confiança tornou-se tão importante quanto a competência técnica.

A melhor decisão é continuar aprendendo

Ao final da conversa, Guga foi questionado sobre o que considera uma boa decisão. Sua resposta sintetizou a filosofia que o levou ao topo do esporte mundial: “A melhor decisão é continuar aprendendo.”

Segundo ele, a excelência não está ligada à ausência de erros, mas à disposição permanente para evoluir, corrigir rotas e aproveitar cada experiência como oportunidade de crescimento.

A mensagem encerrou a participação do ex-tenista com um ensinamento que vai além do esporte: em um mundo cada vez mais imprevisível, a vantagem competitiva não pertence necessariamente a quem sabe mais, mas a quem aprende mais rápido.