quinta-feira, 16 de abril de 2026

SAÚDE

 Com mais de 300 mil mortes por ano, Brasil ganha aplicativo gratuito que ensina a agir em paradas cardíacas

Ferramenta conecta treinamento em primeiros-socorros, mapa de desfibriladores e dados para ajudar a salvar vidas fora do hospital

Mais de 300 mil brasileiros morrem todos os anos por causas cardiovasculares, muitas vezes de forma súbita e longe de qualquer hospital. Em boa parte desses casos, a diferença entre a vida e a morte está nos primeiros minutos — e na presença de alguém que saiba o que fazer. 

É justamente essa lacuna que um novo aplicativo brasileiro quer ajudar a preencher. O Dona Socorro foi criado para ensinar, de forma simples e acessível, como agir em emergências como parada cardíaca, engasgos e outras situações críticas. Mas vai além: o aplicativo faz parte de um sistema mais amplo que também mapeia desfibriladores (DEAs) e organiza informações sobre o preparo das cidades para responder a esse tipo de ocorrência. 

“A maioria das pessoas nunca aprendeu o que fazer nos primeiros minutos de uma parada cardíaca. Não por falta de vontade, mas porque o acesso a esse conhecimento sempre foi fragmentado, difícil e pouco atraente. O Dona Socorro existe para mudar isso — de forma acessível, gamificada e com dados que realmente orientem decisões de saúde pública”, afirma Luiz Guilherme Calderon, fundador do Dona Socorro. 

O aplicativo Dona Socorro, disponível para download gratuito no site www.donasocorro.com.br, classifica os usuários em dois perfis: Leigo, para quem está iniciando o aprendizado em primeiros socorros; e socorrista, para quem já possui certificação reconhecida. A evolução entre perfis é conquistada por meio de trilhas de aprendizado gamificadas, quizzes e atividades práticas. 

Nele, o usuário terá acesso a guias de RCP (Ressuscitação Cardiopulmonar), mapa colaborativo de desfibriladores em tempo real, que permite que qualquer pessoa localize rapidamente um equipamento próximo em caso de emergência, e IA assistente de primeiros socorros 24h.  

Mais do que um app: uma rede de proteção 

Além do aprendizado individual, o sistema permite entender o nível de preparo de uma cidade — algo que hoje ainda não é medido de forma estruturada no Brasil. 

“Toda cidade tem uma pergunta sem resposta: se uma parada cardíaca acontecer aqui, agora, o meu território está preparado para responder? O Dona Socorro transforma essa pergunta em dados concretos — onde estão os DEAs, quantas pessoas treinadas existem por bairro, qual é o Índice de Proteção Cardíaca do município. Isso é ferramenta de gestão pública, não só aplicativo de saúde”, explica Calderon. 

Validação médica reforça credibilidade 

Todo o conteúdo de primeiros socorros disponível na plataforma foi desenvolvido com base em diretrizes internacionais e validado pelo Grupo Surgical, referência nacional em cirurgia de emergência e trauma. 

Para o presidente do grupo, Prof. Dr. Bruno M. Pereira, ampliar o conhecimento da população é um passo essencial para salvar vidas. “A cadeia de sobrevivência começa antes do atendimento médico especializado. Quando um leigo sabe reconhecer uma parada cardíaca, acionar o serviço de emergência e iniciar a RCP imediatamente, as chances de sobrevivência podem dobrar ou triplicar. O Dona Socorro preenche uma lacuna real na preparação da população brasileira, e fazê-lo com rigor técnico é o que dá sustentação e credibilidade ao projeto”, afirma. A cada minuto sem RCP, as chances de sobrevivência diminuem 10%. 

Primeiros passos já em andamento 

A iniciativa começa a ganhar escala em Campinas (SP), onde academias já passam a integrar o sistema com equipes treinadas e equipamentos mapeados. A Academia SIX, a primeira seis estrelas da cidade, já aderiu à plataforma. A proposta também prevê a expansão para escolas e parcerias com o poder público. 

“Academias e escolas são dois dos ambientes com maior concentração de pessoas fisicamente ativas e jovens — e, ao mesmo tempo, dois dos locais onde paradas cardíacas mais surpreendem. Treinar os profissionais e alunos que já estão nesses espaços é a forma mais inteligente de criar cobertura real de resposta a emergências na cidade”, diz Calderon.