O voto e a crise silenciosa da democracia brasileira
Claudio Carneiro
Nas próximas eleições, milhões de brasileiros irão às urnas mais uma vez, mas uma parte importante deles chegará à cabine de votação com uma sensação incômoda: a de que está escolhendo o “menos pior” e não propriamente um projeto em que acredita. É um incômodo que não é novo, mas que ganhou força à medida que cresceu a desconfiança nas instituições, nos partidos e na própria ideia de política. A democracia segue de pé, mas algo nela vem se esgarçando em silêncio.
Pesquisas recentes mostram que a confiança dos brasileiros nas instituições está em baixa histórica. O Congresso e os partidos políticos figuram entre os campeões de desconfiança, e até o Supremo Tribunal Federal, que deveria ser um dos pilares de estabilidade, passou a ser visto com reservas por boa parte da população. Quando o eleitor olha à sua volta e enxerga um sistema que parece não o representar, o voto corre o risco de se transformar em mero gesto burocrático. O que falar então do Poder Executivo nas suas três esferas de governo (federal, estadual e municipal)?
Essa erosão da confiança não acontece de um dia para o outro. Ela é resultado de anos de promessas não cumpridas, escândalos sucessivos, decisões judiciais controversas e um ambiente de polarização em que o adversário político passou a ser tratado como inimigo a ser destruído. Em vez de as eleições servirem para renovar esperanças, muitas vezes elas apenas escancaram fraturas que já estavam abertas.
Há quem leia o aumento do voto de protesto, do voto nulo ou branco, e também da abstenção, como sinais dessa crise de confiança. Em vez de usar o voto para apoiar um projeto, parte do eleitorado prefere usá‑lo para rejeitar “tudo isso que está aí” ou simplesmente se ausentar do processo. É um recado claro: a democracia segue sendo o regime possível, mas o modo como ela tem sido praticada no Brasil não convence. Mas será que essa é a melhor solução para transformar o país?
Ao mesmo tempo, é importante notar que essa crise não significa necessariamente vontade de ruptura. A maioria dos brasileiros continua preferindo a democracia a qualquer forma autoritária de governo, ainda que critique duramente o funcionamento concreto das instituições. A tensão está justamente aí: queremos instituições que funcionem, mas temos cada vez mais dificuldade de confiar nelas.
Parte do problema está na confusão entre crítica e deslegitimação. Toda democracia saudável precisa de crítica às suas instituições; isso é o que as faz melhorar. O que se vê, com frequência, é algo mais corrosivo: transformar ataques às instituições em estratégia política, como se enfraquecê‑las fosse um atalho para vencer eleições ou se manter no poder. Nesse jogo, a conta sempre chega, e não é pequena.
Quando a desconfiança vira método, o país entra em um círculo vicioso. Governos eleitos passam mais tempo se defendendo de suspeitas do que governando, opositores apostam no “quanto pior, melhor”, decisões técnicas são interpretadas como manobras partidárias, e o cidadão comum se retira para o único espaço em que ainda sente algum controle: o da própria vida privada. É nesse momento que a democracia começa a definhar por falta de participação qualificada.
O voto, nesse contexto, continua sendo um instrumento poderoso, mas não é mágica. Ele não resolve sozinho o problema de um sistema político fragmentado, de partidos que se parecem pouco ideologicamente e de instituições que comunicam mal suas razões. Ainda assim, abrir mão do voto, ou tratá‑lo como um gesto irrelevante, é entregar de bandeja as decisões mais importantes do país a quem ainda está disposto a ocupar esse espaço
O desafio é resgatar a ideia de que a política não é assunto distante. Ela está no trânsito, na segurança pública, na escola dos filhos, na saúde, no imposto que se paga e no serviço que não chega. Quando o eleitor conclui que “tanto faz”, ele está, na prática, dizendo que tanto faz quem decide sobre tudo isso em seu lugar.
Isso não significa votar com entusiasmo cego em quem quer que seja. Significa assumir uma postura adulta diante da democracia: informar‑se, desconfiar das promessas fáceis, cobrar coerência entre discurso e prática, recusar a lógica do inimigo interno permanente. E, sobretudo, entender que o voto não é um cheque em branco, mas um contrato que pode — e deve — ser rescindido nas urnas quando for preciso.
A crise da democracia brasileira não está apenas nos discursos inflamados, nas redes sociais ou nas manchetes dos jornais. Ela também se manifesta na apatia, no cansaço e na sensação de que nada muda, independentemente de quem vença. Justamente por isso, talvez o maior gesto de responsabilidade cívica neste momento não seja gritar mais alto nas redes, mas fazer um movimento simples e, ao mesmo tempo, exigente: olhar para a própria consciência antes de apertar o botão verde da urna.
Em tempos de desconfiança crescente, o voto continua sendo o último fio que nos liga à ideia de que é possível corrigir rumos sem romper com a democracia. Se romper esse fio, o que sobra é sempre pior do que o cenário que hoje criticamos — e, nessa hora, pode ser tarde demais para se arrepender
Claudio Carneiro
(Advogado e PhD em Direito)
@claudiocarneirooficial