Feminicídio em alta: um recorde que não pode ser ignorado
Claudio Carneiro
O Brasil acabou de registrar o maior número de feminicídios dos últimos dez anos e, pior, um cenário que parece se agravar ano após ano. Levantamentos preliminares e notas técnicas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que em 2025, 1.568 mulheres foram assassinadas por razões de gênero, o equivalente a cerca de quatro mulheres mortas por dia só pelo fato de serem mulheres. Desde a criação da Lei do Feminicídio em 9 de março de 2015 até o início de 2026, mais de 13.700 mulheres foram assassinadas no Brasil por razões de gênero. Isso, por si só, demonstra que essa violência não é questão de exceção, mas de regra em muitas casas brasileiras. O que assusta é que o número está subindo, não caindo.
Os dados mais recentes apontam que, em 2025, o país registrou 6.904 vítimas de feminicídio consumado e tentado, um aumento de 34% em relação a 2024. São mais de 4.700 tentativas e pouco mais de 2.100 mortes, muitas delas em meio a separações, brigas, ciúmes extremos e relações abusivas. Em boa parte dos casos, o algoz é o próprio parceiro ou ex‑parceiro, e o lugar mais “seguro” da casa se transforma no cenário de um crime de ódio. A lei existe, mas, em muitas situações, chega tarde demais ou é mal aplicada.
Segundo site do Senado Federal, uma análise de 5.729 casos entre 2021 e 2024 aponta um padrão recorrente: 59,4% das vítimas foram mortas pelo companheiro; 21,3% pelo ex-companheiro; 10,2% por outros familiares e apenas 4,9% dos autores eram desconhecidos. Outro recorte importante é o de raça e vulnerabilidade: mais de 60% das vítimas de feminicídio são mulheres negras. Isso mostra que a violência contra a mulher não atinge todos os grupos de forma igual. Mulheres negras, pobres, moradoras de periferias e pequenas cidades concentram os maiores riscos, muitas vezes com menos acesso a delegacias da mulher, juizados especializados, refúgios e serviços de apoio. Em muitos lugares, a distância de um posto de polícia ou a falta de transporte público seguro já basta para que uma mulher desista de denunciar.
O aumento dos números também não se explica apenas por mais violência. Há mais notificação, mais diagnóstico e mais consciência de que assassinatos de parceiros por questão de gênero precisam ser tratados como feminicídio, não como crime “passional” ou “drama conjugal”. No entanto, pesquisadores alertam que a alta de cerca de 4,7% em 2025 vai além da melhora estatística: parte reflete, de fato, mais violência, mais embates em relações abusivas e menos saída econômica e emocional para muitas mulheres que tentam se separar.
O medo também aumentou no cotidiano. Pesquisas mostram que o percentual de mulheres que declaram ter “muito medo de ser vítima de estupro” subiu de 78% em 2020 para 82% em 2025. Essa sensação de insegurança se espalha por bairros, shoppings, ônibus, metrô, praia e até dentro de casa. A notícia de um novo caso de feminicídio não é apenas um título de jornal, é um espelho da realidade de milhares de mulheres que vivem sob ameaça, silêncio e intimidação. A percepção que se tem com os relatos de 2026, é que esses quadros estão aumentando.
No nível do Estado, é preciso mais do legislação e campanhas políticas. É preciso delegacias da mulher 24 horas, juizados especializados com prazos rápidos, aplicativos de denúncia funcionando de verdade, refúgios seguros e acompanhamento rigoroso das medidas protetivas. Muitas vezes, a vítima já denunciou, já teve medida protetiva, já foi atendida, mas o sistema não acompanha, não fiscaliza e não protege. Resultado: o agressor volta, a situação se agrava e, em muitos casos, a mulher morre.
Do lado da sociedade, o papel é igualmente central. Denunciar uma agressão não é “ficar tomando partido” na relação de casal, é tentar salvar uma vida. Vizinhos que ouvem gritos, amigos que notam um comportamento controlador, colegas que percebem que alguém está isolada – todos podem ser parte da rede de proteção. A omissão, em muitos casos, é lida como permissão. A indiferença alimenta o silêncio que protege o agressor e deixa a mulher sozinha.
No cotidiano brasileiro, esse tema não é distante. É sobre a vizinha que some das redes sociais, a colega que nunca sai sozinha, a amiga que justifica toda violência como “ciúme” ou “momento difícil”. É sobre entender que violência psicológica, controle de celular, ciúmes excessivos e humilhação pública são sinais de alerta, não “peculiaridade de relacionamento”. Aos poucos, a sociedade está aprendendo a reconhecer isso, mas ainda está longe de transformar essa consciência em proteção efetiva.
O feminicídio não é um caso de polícia isolado, é um sintoma de machismo estrutural, desigualdade social e falha de proteção estatal. Mas também é um convite para que cada um de nós repense gestos, palavras, piadas e “comentários” que parecem leves, mas naturalizam o controle, a posse e o abuso sobre o corpo e a autonomia das mulheres. Enquanto o Brasil bate recordes de feminicídios, o mínimo que podemos fazer é não tratar cada novo caso como algo normal, distante ou inevitável. Afinal, essas vítimas poderiam ser nossas irmãs, nossas filhas, nossas amigas – ou até você, leitora, que está lendo estas linhas.
Por Claudio Carneiro
(Advogado e PhD em Direito)
@claudiocarneirooficial