Copa do Mundo, feriadões, eleições e reforma tributária – afinal, quem paga essa conta?
Claudio Carneiro
Em um ano de calendário perfeito para viajar e consumir, a reforma tributária começa a sair do papel e impacta o bolso da população, do lojista, dos fabricantes e dos prestadores de serviço e profissionais liberais, em pleno ambiente eleitoral.
Basta olhar no calendário, uma sequência de feriadões, Copa do Mundo e, de quebra, o início da implementação da reforma tributária sobre o consumo. Isso, em tese, significa shoppings cheios, praias lotadas, restaurantes disputados – e uma dúvida comum: a conta vai ficar mais cara ou mais barata para quem consome e para quem vende.
Ao mesmo tempo, o país entra em mais um ciclo eleitoral nacional, em que candidatos disputam também narrativas sobre a reforma. Para a população, isso significa conviver com testes do novo sistema de tributação, promessas de alívio de carga e incerteza sobre quando e o que será efetivamente implementado.
O Brasil começa a virar a chave do sistema de tributação sobre o consumo, com a transição para novos tributos. A ideia é simplificar regras e unificar bases hoje espalhadas em diferentes tributos, com uma alíquota padrão relativamente elevada e regimes específicos para alguns setores e famílias de menor renda.
2026 será de testes e de pedagogia tributária, ou seja, empresas, governos e contribuintes vão experimentar as novas regras, enquanto o debate eleitoral tenta capitalizar ganhos e minimizar custos. Em ano de disputa política, discursos sobre aumento ou redução de impostos tendem a vir carregados de simplificações e exageros, o que confunde ainda mais o contribuinte.
Para quem pensa no orçamento do mês, o que importa é o efeito final no custo de vida. Produtos e serviços que hoje se beneficiam de benefícios ou disputas fiscais entre estados podem sofrer recomposição de carga, enquanto outros, mais onerados, podem ter algum alívio. Como iniciamos um período de transição em que o antigo e o novo sistema convivem, será difícil prever, com precisão, a evolução de preços: aumentos em alguns segmentos, reduções em outros e uma nota fiscal mais detalhada para decifrar.
No comércio e nos serviços locais, a sensibilidade é a mesma. Bares, restaurantes, salões, clínicas e pequenas lojas terão de se adaptar a novos modelos de tributação, regras de crédito e obrigações acessórias, com promessa de menos burocracia, mas temor de compressão das margens. Setores ligados ao turismo, à hotelaria e à alimentação fora de casa aparecem com destaque em regimes específicos, abrindo espaço para ajustes de preços estratégicos em um ano de maior fluxo como 2026.
Em ano eleitoral, há a tentação de adiar decisões impopulares ou prometer benefícios fiscais, aumentando a sensação de insegurança. Para o pequeno empresário, o prudente é trabalhar com o que já está aprovado em lei e com o cronograma oficial da reforma, e não com promessas de campanha, antecipando organização tributária e ajustes de preços.
Os condomínios também entram na conta. Síndicos e administradores contratam serviços de limpeza, manutenção e segurança, muitas vezes prestados por pequenos empresários ou autônomos, que podem ter tratamento diferenciado ou até ficar fora da incidência do novo tributo, a depender do faturamento. Isso pode pressionar ou aliviar a taxa condominial que chega todo mês ao morador, tornando informação e planejamento contratual tão importantes quanto negociar preço.
É nesse cenário que entram os feriadões e a Copa. De um lado, há temor de perda de dias úteis e aumento de custos trabalhistas; de outro, estudos apontam que feriados prolongados tendem a impulsionar turismo interno, consumo em bares e restaurantes e ocupação hoteleira. Cada feriadão pode significar mais mesas ocupadas, mais corridas de aplicativo, mais compras nos shoppings e mais diárias em hotéis e flats.
No ano em que a nova tributação começa a ser implementada, esses feriados funcionam como “teste de estresse” para comerciantes e prestadores. Quem planejar estoques, preços e equipes com antecedência tem mais chance de transformar ameaça em oportunidade; quem enxergar apenas perdas pode sentir mais a pressão dos custos tributários e da concorrência.
Diante desse contexto, não dá para afirmar se o ano será bom ou ruim para o bolso e para os negócios. A diferença estará em como cada um vai se informar, separar promessa de realidade e se organizar para atravessar, com serenidade, um período que é, ao mesmo tempo, de teste, de disputa política e de oportunidades.
Por Claudio Carneiro
(Advogado e PhD em Direito)
@claudiocarneirooficial