quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

CULTURA

 A "Cidade Maravilhosa" nasceu na literatura: 5 livros para celebrar o aniversário do Rio de Janeiro

De Jane Catulle Mendès a Lima Barreto, cinco obras da Autêntica mostram como o Rio de Janeiro foi invenção poética, cenário afetivo e matéria-prima da crônica brasileira


No dia 1º de março, o Rio de Janeiro celebra mais um aniversário. Antes de se tornar marchinha, cartão-postal ou slogan turístico, porém, a cidade foi palavra. A expressão “Cidade Maravilhosa”, que atravessou o século XX e se consolidou como marca internacional do Rio, nasceu da literatura e foi criada pela poeta francesa Jane Catulle Mendès ao se encantar com o pôr do sol visto ainda do navio, ao chegar à então capital federal em 1911.

A história dessa invenção simbólica é recuperada no livro A poeta da Cidade Maravilhosa, escrito pelo jornalista e pesquisador Rafael Sento Sé. Resultado de mais de uma década de pesquisa, o livro devolve à autora a criação do epíteto e reconstrói a efervescência cultural da Belle Époque carioca, iluminando também redes femininas e intelectuais esquecidas pela historiografia tradicional. Ao restituir a autoria da expressão, a obra revela como o Rio foi, desde cedo, também uma construção literária.

Se a cidade foi batizada pela poesia, também foi moldada pelos passos de seus escritores. Em O Rio de ClariceTeresa Montero recria os trajetos percorridos por Clarice Lispector na cidade onde viveu por tantos anos. Do Leme ao Centro, passando por Botafogo, Jardim Botânico, Leblon e Ipanema, o livro propõe um passeio afetivo pelos espaços que atravessam a vida e a obra da autora. Em sua segunda edição revista e ampliada, a obra incorpora novos bairros, mapas e fotografias de Daniel Ramalho, transformando o Rio em território literário vivo.

A mesma cartografia afetiva se expande agora com O Rio de Fernando Sabino, da mesma autora, atualmente em pré-venda. O livro acompanha os 55 anos em que o escritor mineiro viveu na cidade, entre Copacabana, Ipanema, redações, bares e encontros que moldaram uma geração. Mais do que cenário, o Rio surge como força formadora de uma literatura que captou o cotidiano, o humor e as contradições da vida urbana carioca.

A tradição da crônica, aliás, encontra no Rio um de seus territórios mais férteis. Em Os sabiás da crônica, organizado por Augusto Massi, seis mestres do gênero —Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta e José Carlos Oliveira — compõem um painel cultural que atravessa da década de 1930 à virada do século XXI. Entre bairros, bares, conversas sobre música e cinema, receitas de feijoada e a poesia do futebol, o Rio aparece como palco da amizade intelectual e da experiência cotidiana que alimenta a melhor tradição da crônica brasileira. O volume conta ainda com um prefácio visual de Paulo Garcez, cujas fotografias reforçam a atmosfera desses encontros.

Já em Lima Barreto, cronista do Rio, organizado por Beatriz Resende, o leitor percorre as ruas da capital carioca entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX guiado pelo olhar atento e crítico de um de seus maiores intérpretes. As crônicas revelam o Teatro Municipal, a Lapa, o Centro, Botafogo e o Passeio Público, compondo um retrato urbano que combina ironia, denúncia social e sensibilidade literária. A edição traz ainda fotografias históricas do acervo da Biblioteca Nacional, ampliando o diálogo entre texto e memória visual.